Apesar das constantes evoluções no Turismo em Portugal, é preciso que as pessoas percebam que esta área tem características muito específicas, além de ainda ser muito pouco valorizada, especialmente do ponto de vista dos recursos humanos. Não me interprete mal, aqui vai ter sempre trabalho! A questão é se é da forma que idealiza…

Para lhe dar uma ajuda na sua tomada de decisão, selecionei algumas questões que deve fazer a si mesmo antes de avançar. Espero que o ajude a clarificar, mas, de qualquer das formas, estarei sempre disponível para esclarecer outras dúvidas que tenha ou que possam surgir.

Leia, desfrute, reflita, pesquise e, se incertezas persistirem, não se acanhe, fale comigo! Vamos lá:

  • Gosto de Pessoas?

O Turismo é uma área feita de Pessoas para Pessoas. É inevitável, se não gostar de lidar com seres humanos, satisfazer as suas necessidades, concretizar os seus sonhos, ajudá-los a ultrapassar as suas dificuldades, não vai conseguir executar qualquer que seja a tarefa em Turismo, por isso reflita bem sobre esta questão.

  • Tenho apetência para servir?

A grande maioria das funções que se assumem em Turismo estão relacionadas com o serviço ao cliente. Para servir há que ter uma certa propensão para cuidar, zelar, mimar, cativar, agradar, sempre com entrega, empenho, dedicação, excelência, profissionalismo e foco em fazer sempre mais e melhor. Identifica-se? Pense nisso!

  • Fico feliz por fazer os outros felizes?

Em Turismo os vencimentos ainda estão muito longe de serem razoáveis, especialmente se os compararmos com a relação de esforço entre as condições de trabalho que aqui se têm e o work life balance que muito dificilmente se consegue alcançar. É comum ouvir estes profissionais dizerem que é uma área ingrata, mas muito gratificante exatamente por causa desta questão: as condições não são as melhores, mas, além de haver sempre trabalho, trabalhamos com a concretização de sonhos e isso faz-nos felizes. Imagina-se? Sente emoção com essa visualização? Analise bem!

  • Sou sociável?

Se vai lidar com pessoas e com o serviço ao cliente, não pode ser uma pessoa acanhada. Claro que todos têm o direito a ser mais reservados no seu ambiente se assim entenderem, mas, em contexto profissional, não pode pensar em ficar envergonhado cada vez que um cliente se lhe dirigir ou que você próprio tenha que o abordar. Acredite, vai estar sempre a acontecer! Mesmo que tenha um trabalho de backoffice ou com menos contacto direto com o cliente, é sempre para ele que estará a trabalhar, por isso, mesmo indiretamente, é importante conhecê-lo e ter facilidade de comunicação, pelo que deve avaliar as suas preferências.

  • Caracterizo-me pela polivalência?

Para trabalhar em Turismo precisa saber e saber fazer um pouco de tudo. Desde história a geografia, passando por primeiros socorros, recursos humanos, gestão de empresas, contabilidade, marketing, chegando aos conhecimentos mais técnicos. Como é uma área muito vasta, os cursos são, maioritariamente, generalistas, embora haja, em alguns casos, a possibilidade de afunilar para uma especialização, ou se parta do princípio que o próprio o deva fazer. Atualmente já existem muitos outros cursos de carácter profissionalizante que são mais concretos, mas, ainda assim, há que abrir a mente para saber sempre um pouco de tudo porque o próprio mercado o exige.

Na prática, estes conhecimentos todos vão ser-lhe muito úteis porque tanto precisa de dar indicações sobre como chegar a determinado local, como pode ter que contextualizar uma personagem na história, como pode ter que inserir reservas, como pode ter que fazer pesquisas profundas, como pode ter que conceber o melhor pacote turístico, como pode ter que vender uma estadia, enfim… a variedade de tarefas e funções é mesmo muito vasta. Por outro lado, não podemos esquecer que a maioria do tecido empresarial português é de pequena dimensão, logo, em muitos casos, poderá ter que assumir mais do que uma função na mesma empresa. Está disposto a isso? Pondere!

  • Tenho espírito de sacrifício?

Trabalho muito com jovens e ultimamente tenho percebido que a maioria não sabe o que é o espírito de sacrifício. Não interessa muito agora porque é que isso acontece, mas importa dizer que se não sabe o que isso é ou não está disposto a aplicar, então, definitivamente, não pode trabalhar em Turismo. Espírito de sacrifício significa ser altruísta com alguém que não conhece de lado nenhum, ou, se quiser, colocar a necessidade do outro à frente da nossa pelo seu bem, pela sua satisfação, pela superação das suas expectativas. Na prática, significa, por exemplo, prolongar o horário de trabalho porque um cliente se atrasou, fazer um turno duplo porque um colega adoeceu e o cliente não pode ficar sem apoio, ou nem conseguir esfregar as pernas ao tomar banho, porque passou o dia a “fazer piscinas” para conseguir ter todos os clientes felizes e com as suas necessidades satisfeitas. Em alguns casos, estas situações são pontuais, noutros, acredite, são recorrentes e ou está para isso ou não está. Considere bem, “dar o corpo às balas” não é para qualquer um!

  • Tenho facilidade com línguas?

Estamos a falar de Turismo. Às vezes vai lidar com nacionais, muitas vezes vai falar com estrangeiros e, tendo em consideração que vai querer ser um profissional de excelência, deve falar bem o maior número de línguas. Na minha opinião pessoal, se não tem grande facilidade com línguas, mas o seu sonho é trabalhar nesta área, aposte forte no inglês e treine muito. Mas o ideal é continuar a investir noutras línguas também e garantir que, mesmo que ainda não saiba muito, o que sabe é bom.

  • Sou flexível?

Trabalhar em Turismo significa trabalhar quando todos os outros descansam, se divertem, partilham momentos de felicidade com os seus amigos e familiares. Os profissionais de turismo trabalham por turnos e, por norma, muitas e muitas horas seguidas. Fins de semana, Verão, épocas festivas são passados a trabalhar e não a descansar como a maioria das pessoas. Às vezes é preciso fazer trocas e cedências pela harmonia do local de trabalho e pela satisfação do cliente. Está disposto a isto e mais qualquer coisita? 

  • Sou resiliente?

Por muitos dos motivos apresentados até aqui e tantos outros, o Turismo é uma área dura de se trabalhar. É pesado física, psicológica e emocionalmente. Como já vimos:

  • trabalha-se muito com pessoas, pelo que tem que estar sempre leve, fresco e simpático;
  • os horários são desfasados da realidade da maioria das pessoas, por isso custa muito ter que ir trabalhar quando todos os familiares estão à mesa da Consoada, por exemplo;
  • quando uma atividade se prolongou e estamos a falar do dia mais feliz dos nossos clientes, por exemplo, não podemos simplesmente desertar, embora estejamos a trabalhar há 16h seguidas e não ponhamos nada na boca há 6h.

Vai aguentar a pressão? Considere bem estas situações!

  • Onde quero chegar exatamente?

Se delinear, desde cedo, exatamente o que quer, então o seu percurso vai ser mais simples, prático e objetivo. É claro que nem sempre tudo corre como o esperado, mas se tiver uma linha condutora e for acertando as agulhas, tem meio caminho andado para que a sua carreira no Turismo seja de sucesso e, mais importante que tudo, feliz! Já tinha pensado nisto? É tão, mas tão importante!

É que se ficou com a sensação de que esta área só tem aspetos negativos, desengane-se. Apenas tento alertar para uma realidade que muitos têm medo de mostrar, outros camuflam e, outros ainda, fingem não existir. Se estiver informado, sabe para o que vai, apenas quero partilhar para alertar. Mas claro que existem vantagens nestas profissões e é possível ser feliz e realizado. Trace o seu plano, aja e chegue lá!

E é isto. Penso que antes de tomar uma decisão, deve analisar, de forma consciente, todas estas questões e outras que lhe pareçam importantes. Decisões conscientes permitem-nos evitar dissabores e saber exatamente o que queremos, de modo a atingirmos os nossos objetivos.

Se se identificou com a maioria das situações expostas, então avance! Boa sorte com o seu curso, seja ele qual for, de que nível ou escola, e bem-vindo ao mundo do Turismo!

Se, pelo contrário, não se imagina nestes cenários, então não vá contrariado, apenas vai contribuir para uma maior frustração da sua parte e para denegrir a imagem de um setor bonito e onde o “saber ser” deverá ser o foco. Acredite, contrariado e frustrado não vai atender bem ninguém. O seu cliente não merece, o Turismo não merece, você não merece!

Já tinha pensado nisto?

Há outras questões que acrescentaria a esta lista?

Conte-me tudo, vou gostar de saber! 

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