Muitos dos meus clientes de coaching demonstram-se céticos em relação à capacidade de se ouvirem a si próprios. Já Sócrates dizia que as respostas estão dentro de nós e o coaching baseia-se nesta mesma premissa. Se procura coaching à procura de soluções para os seus problemas nas respostas do outro, então desengane-se. Talvez precise de uma mentoria, uma consultoria ou uma terapia. Não coaching.

E agora é aquele momento em que se pergunta: “Como assim, as respostas estão dentro de nós? Se eu tenho problemas quero é que me digam o que é que eu tenho que fazer para os solucionar, que é para isso que estou a pagar!”

Pois é. É a isso que o caro leitor e a maioria de nós está habituado. A procurar respostas num livro, no Sr. Google, nos pais, nos amigos, nos médicos… em todo o lado, menos exatamente onde deveria: em si.

Isto acontece porque a nossa educação não premeia o erro. Quando nos educam, os nossos pais, professores e sociedade em geral dão-nos as soluções aos problemas, ensinam-nos como devemos fazer tudo para ter sucesso, desde as mais simples atividades até às mais complexas escolhas, nas mais variadas áreas da vida, como o curso que devemos seguir, os amigos que devemos ter, a forma como lavamos a roupa, o carro mais indicado, os desportos que devemos praticar…

Com este comportamento recorrente, vamos alimentando, ao longo do tempo, a ideia errada de que precisamos sempre de algo ou alguém externo a nós para validar as nossas opiniões e as nossas decisões. Normalmente, quando o fazemos sozinhos, acabamos por errar e há sempre alguém que nos diz “eu avisei”, ou “estava-se mesmo a ver que ia dar nisto”, ou, ainda, “devias ter-me dado ouvidos”. Assim, além do medo de fazer e pensar sozinho, temos agora a validação de que não o podemos fazer se quisermos ser bem-sucedidos. E óbvio que não queremos errar. Encarar o erro como uma aprendizagem e uma forma de crescimento é uma ideia bonita, mas ninguém quer ter de passar por isso, especialmente devido ao escrutínio público.

Deixamos, então, de ter a capacidade de pensar por nós próprios. Passamos a ser meros seguidores, que copiam comportamentos, reproduzem frases feitas, replicam hábitos, seguem a “manada”, alheios às possibilidades, às suas vontades. E não é que não queiramos. Simplesmente não sabemos que é possível ser, ter e fazer muito mais, muito melhor, ou, pelo menos, diferente. Não sabemos porque temos os olhos fechados, a mente bloqueada, as ideias formatadas. Estamos seguros!

A falta de confiança apodera-se do nosso discernimento e já nem é uma questão de não nos conseguirmos ouvir, simplesmente já não nos lembramos de que isso é possível. Já não sabemos como se faz.

Então, o cepticismo em relação à capacidade de se ouvir a si próprio e encontrar as soluções para os seus próprios problemas está relacionado, essencialmente, com duas questões:

  1. A crença limitante que ouvir-se a si próprio é uma idiotice tremenda;
  2. Falta de autoconfiança.

Para melhor me fazer entender, ilustro estas questões com casos práticos:

  1. Numa sessão de coaching, com uma cliente que já tinha percebido que não acreditava muito nestas coisas, mas que queria magia na sua vida, perguntei-lhe se as respostas estavam a chegar e ela disse-me, com uma cara que quer personificar o ridículo, que não. Acrescentou: “essa coisa que tu dizes de virem as respostas não está a acontecer. Virem de onde? Vou ouvir vozes, é isso?”; perguntei-lhe, de seguida, se considerava ser possível ouvir-se a si própria e ela respondeu: ”vocês dizem que sim, mas eu não vejo nada.” Bom, a resposta estava dada. Trabalhámos, a partir daí, o tema das crenças, mas a minha cliente ainda não tinha percebido que, mais do que acreditar, para se conseguir ouvir, é preciso querer.

Vou revelar, de uma vez por todas, o que é isto de se ouvir a si próprio. Lembra-se, em pequeno, quando brincava sozinho, de ter amigos imaginários, falar “sozinho”, fazer perguntas e dar as respostas? Já está a ter um vislumbre do que poderá ser ouvir-se a si próprio? Ainda não? Eu explico melhor: você tem a capacidade de pensar, certo? Você é capaz de falar consigo próprio certo? Ah, Cátia, isso é ridículo! Não, não é e, se pensar bem, estamos constantemente a fazê-lo, só não nos apercebemos disso! Ouvir-se a si próprio significa encontrar soluções para os seus problemas através da reflexão e do diálogo interior. Colocar hipóteses, analisar as opções e confiar no seu discernimento para a ação.

Era só isso? Sim, é simples. Se achava que era um unicórnio escondido, uma resposta obscura, uma fórmula mágica, lamento desiludi-lo, é só isto mesmo. Mas, então, se é tão simples, porque é que a maioria não o consegue fazer? Porque as pessoas:

  1. querem fórmulas de bolo, em que carreguem num botão e todos os seus problemas desapareçam;
  2. estão anestesiadas, envoltas nos afazeres do dia a dia e não se permitem parar para se ouvir, para pensar.

Então, como podemos trabalhar para nos ouvirmos melhor?

Poderia aqui dissertar sobre este tema, mas vou apenas dar três sugestões:

  • Perceba que se trata de um processo: aja, insista e persista;
  • Aceite que ser feliz dá trabalho; se quer ser faça por isso; se não quer fazer por isso pare de se queixar e assuma as suas decisões e as suas consequências;
  • Leia e ponha em prática os ensinamentos do livro “Mindfulness – Atenção plena”, do professor Mark Williams e do Dr. Danny Penman.
  1. Tive uma cliente de coaching que tinha o comportamento recorrente de partilhar as suas ideias e revelações comigo, perguntando-me sempre o que eu achava, qual a minha opinião. Um dia perguntei-lhe para que é que queria saber o que eu pensava e respondeu-me que me admirava muito, que eu era uma referência para ela e por isso a minha opinião era muito importante. Na verdade, o que ela queria era validação. A confirmação de que as suas ideias estavam certas, pois não confiava o suficiente em si própria. Estão a ver o peso da responsabilidade? Sempre que tem este tipo de atitudes está a pôr a responsabilidade da sua vida na mão de outros. Trata-se da sua vida. Vai mesmo terceirizar uma responsabilidade que é sua? Ok, não há mal nenhum em pedir opiniões a amigos, familiares, mentores, pessoas que admiramos. Ajuda-nos a construir bases sólidas sobre um assunto ou decisão que temos que tomar e todos o fazemos em algum momento da nossa vida. O que é importante, caro leitor, é que não se limite à opinião dos outros, não reja a sua vida com base no que os outros pensam e deixe de conseguir tomar decisões por si próprio, pensar por si próprio, lembrar-se que tem quereres e está no seu direito de lutar por eles, por si. A questão é muito simples: quando é que vai, finalmente, tomar as rédeas da sua vida, tomar as suas próprias decisões e assumir as responsabilidades sobre as suas ações?

Para o ajudar, deixo duas sugestões:

  • Perceba que errar faz parte da vida e traz-nos a possibilidade de aprender; tome as suas decisões: se acertar óptimo, se errar aprenda com isso, levante-se e siga em frente;
  • Você é aquilo que decidir ser, então, se acredita ser uma pessoa forte e determinada, com capacidade de tomar as suas decisões e lidar com as consequências dos seus atos, então assim será; se, pelo contrário, acredita que é um falhado e jamais conseguirá resolver os seus próprios problemas e quer continuar nesse registo, assuma que entrega a gestão da sua vida a outros e pare de se queixar. Assuma ou mude, não há terceira opção!

E de que forma pode o coaching ajudar a ouvir-se melhor?

Estimula um pensamento mais reflexivo, analítico e direccionado para quem é e o que quer para si. Ajuda a resgatar a capacidade de pensar por si próprio e, mais do que isso, a ter a confiança de respeitar as suas opiniões e vontades. Traz a clareza de que não podemos delegar a nossa felicidade e que temos de agir para alcançá-la.

E é um processo fácil?

Nada num processo de coaching é fácil, pelo menos numa fase inicial, pois vai ter que entrar na sua mente, lidar consigo próprio, enfrentar-se. Quando começa finalmente a ouvir-se a si próprio e a estimular, cada vez mais e melhor essa prática, vai conhecer o seu melhor e o seu pior. Eles coexistem e todos os temos aos dois, não há como fugir! Não pode lidar com um e delegar o outro. Quanto mais rapidamente aceitar esta realidade e se conhecer bem para aprender a lidar consigo próprio, mais rapidamente vai atingir um estado de paz e tranquilidade que o ajudarão a lidar com qualquer que seja a situação do dia a dia. Simples assim.

E você, quer realmente ouvir-se?

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