Não, não é qualquer um que serve um prato ou uma bebida a um cliente. Não, não basta pôr um avental e uma camisa branca. A formação em hotelaria/ restauração é, hoje, mais do que importante, necessária. O cliente é cada vez mais exigente e Portugal tem que se afirmar como um destino de excelência.

Para garantir estes níveis de qualidade, só os melhores podem treinar outros para serem os melhores. Hoje dou-vos a conhecer uma dessas pessoas. Ela é a Adriana Travasso, Formadora Profissional de F&B, que gosta sempre de saber as novidades do mercado e de partilhar a sua visão/ perspetiva pessoal e profissional sobre tudo o que a rodeia.

Fui saber um pouco mais sobre estas funções, esta profissional e o seu percurso:

CR – Como é que surge este encontro entre ti e o Turismo?

AT – No final do 9º ano, eu não sabia muito bem o que queria, mas tinha a certeza de uma coisa: não queria estudar no ensino regular. Optei por seguir um curso profissional na área da hotelaria, na única escola da área que havia na altura, em Manteigas. E é, sem dúvida alguma, aí que toda a minha postura e ambição nesta área surge, pelos métodos pedagógicos que esta escola utiliza. Os três estágios que o curso me proporcionou, permitiram-me aguçar a paixão por esta área e, depois de um ano a trabalhar, depois de terminar o curso, decidi que queria aprender mais, saber mais, fazer mais e conhecer mais sobre hotelaria. Não tendo seguido gestão hoteleira por não haver essa oferta na escola onde ingressei, segui turismo. Enquanto estudei, estive sempre em contacto com o mercado real de trabalho, pois gosto de estar atualizada sobre as tendências do mundo operacional. Depois de quase 10 anos sem estudar, achei que estava na altura de voltar à Academia e abracei o desafio de fazer uma Pós-Graduação em Gestão Turística e Hoteleira e frequento, neste momento, o Mestrado em Gestão e Sustentabilidade em Turismo.

CR – Como caracterizas a Formação Profissional do Turismo em Portugal?

AT – Assumindo que a formação nesta área começou a surgir apenas há uns anos, considero que houve uma evolução muito positiva na oferta de formação em turismo. Há 20 anos a oferta era escassa e apenas ao nível das escolas profissionais e escolas do Turismo de Portugal IP. Hoje várias escolas públicas integraram os cursos profissionais.

A par disso, várias entidades de formação reconheceram a necessidade e a oportunidade de criar ofertas formativas nesta área: por um lado pelas estatísticas apresentadas sobre a atividade turística e, por outro, pela pouca qualificação dos recursos humanos nesta área.

CR – As comidas, as bebidas e o serviço de excelência sempre te fascinaram. Exatamente o que é que te apaixona nesta arte?

AT – Adoro saber sempre que há uma novidade, um tipo de comida diferente, um tipo de bebida original. Apaixona-me saber que um cliente hospedado num hotel escreveu uma avaliação positiva sobre a sua estada porque, simplesmente, adorou o serviço que lhe foi prestado no restaurante, porque lhe serviram um vinho aconselhado pelo empregado de mesa e que esse vinho foi decantado, originando um momento único e memorável para esse mesmo cliente. Na minha ambição profissional, satisfaz-me plenamente saber que um cliente valorizou a sua experiência turística não apenas pelo local que escolheu visitar, mas também, e principalmente, pela experiência humana que qualquer funcionário lhe possa ter proporcionado, desde a decoração do seu prato, até à despedida no final.

CR – Como é que se dá formação de F&B?

AT – Para toda a formação que eu dou, costumo seguir este lema: ”envolve-me e eu aprenderei”, parte de uma citação de um autor. Ora, penso que esta frase diz muito sobre os objetivos que tenho para alcançar com os meus formandos. Para mim, e assumindo que F&B tem um caráter muito prático, tento ao máximo passar os conteúdos de uma forma muito prática, pondo os formandos a mexer, a cheirar, a sentir, por forma a assimilarem realisticamente tudo o que vem escrito em manuais. Normalmente analiso previamente os conteúdos programáticos da formação e faço um brainstorming para aplicar esses mesmos conteúdos de uma forma o mais pratica possível, capaz de deixar marcas positivas na experiência formativa dos alunos. Por outro lado, e porque estou sempre à procura das novidades e tendências da hotelaria, procuro incorporar esses temas no decorrer da formação, quer seja através da leitura de artigos de opinião, ou de outras técnicas capazes de motivar e desafiar os alunos. Para complementar, sempre que posso, agendo visitas de estudo a empresas do setor, para que os alunos percebam a verdadeira essência do mundo hoteleiro, onde os testemunhos dos colaboradores são uma peça fundamental para todo o processo de aprendizagem.

CR – Quais os grandes desafios de dar formação de F&B e como os ultrapassas?

AT – Nalguns casos, e vamos ser realistas, tenho muitos formandos que ingressam nesta área de formação porque não há mais oferta disponível. O grande desafio é cativá-los, despertar-lhes o interesse por uma área de trabalho muito dura, mas muito gratificante e enriquecedora. Outra dificuldade que encontro é a falta de recursos materiais, dou por mim a imaginar como é que vou abordar determinados conteúdos se não tenho materiais para tal. Por vezes, é aí que entro na minha “networking” e se os recursos não vêm até mim, vamos nós ter com os recursos e, aí, surgem, por exemplo, as visitas de estudo, entre outras atividades.

CR – Como disseste, o Turismo e os seus derivados são áreas onde é muito gratificante trabalhar, mas também muito duro. Como ultrapassas esse desafio de motivar os mais jovens para o que os espera no mercado de trabalho?

AT – Penso que a melhor forma de motivar é através do exemplo. O facto de continuar ligada à área ajuda-me a mostrar-lhe o que é ser um bom profissional. Falo da minha experiência enquanto colaboradora em hotelaria/ restauração, mas também lhes dou muitos exemplos de ex-alunos que entraram nesta área por escape e, hoje em dia, ocupam cargos importantíssimos no mercado. Além disso, as estatísticas são bem evidentes acerca das oportunidades que a hotelaria proporciona e, por fim,… haverá melhor satisfação do que deixar um turista apaixonado pelo nosso país pela forma como foi atendido, e com uma vontade enorme de regressar?

CR – Na tua opinião, é possível encantar um cliente “pela boca”?

AT – Pegando um pouco na resposta anterior, tive em tempos uma experiência como empregada de mesa num restaurante gourmet e aquilo que me deixava mais satisfeita era, no final da refeição, questionar o cliente se tinha apreciado a refeição e ouvir: ”gourgeous”, “amazing”, “wonderfull”. Não só é possível encantar o cliente pela boca, como tenho a certeza que a riqueza gastronómica que o nosso país tem é um fator diferenciador de outros países. Nós conseguimos transformar partes de um animal que noutros países são desperdício, em petiscos e pratos que os turistas levam na memória quando regressam a casa. Aos alunos digo muitas vezes que os tempos que eles passam com familiares mais antigos, dentro de uma cozinha ou à volta da lareira, devem ser vistos como uma herança cultural, que receio que se perca nas próximas gerações. Também digo muitas vezes: “façam as coisas com amor, pois terão um sabor mais apurado” e eles já brincam comigo dizendo ”Formadora, ontem comi o prato X, mas olhe que não deve ter sido feito com amor, não tinha aquele sabor divinal!”.

CR – Quais as grandes tendências para os próximos tempos na área de de F&B e de que forma estás a preparar os teus formandos para essa realidade?

AT – Creio que a tendência é a da diferenciação e a da fidelização dos clientes: primeiro pelo paladar, pela oferta gastronómica, mas, acima de tudo, pela experiência proporcionada, e essa é maioritariamente criada pelos recursos humanos de um hotel, de um restaurante. Digo aos meus alunos que o serviço por eles prestado a um cliente é a melhor experiência que ele leva consigo, portanto, devem fazê-lo com dedicação, determinação e, de tal forma envolvente, que o vai levar a regressar àquele local.

CR – Apesar de estares praticamente dedicada em exclusivo à formação profissional, sempre te preocupaste em, por um lado, continuar a investir na tua formação e, por outro, manter-te ligada ao mundo empresarial. O que te motiva a este esforço?

AT – Considero que a vida é uma constante aprendizagem, quer seja a nível pessoal, quer a nível profissional. O turismo evoluiu tanto, e a restauração também, com os novos conceitos de serviço, de experiência gastronómica… Então, eu só posso ensinar bem se souber o que está constantemente a acontecer no mercado real de trabalho, certo? Obtenho essa informação de duas formas: através da reciclagem de conhecimentos, indo a formações esporádicas, mas muito úteis, e, muito importante para mim também, trabalhando em períodos de férias escolares em estabelecimentos de restauração. Estar em contacto com colegas da área e com clientes faz-me ter uma noção muito mais fiável das necessidades de formação e ajustá-las ao mercado. Só para reforçar esta questão, sinto uma felicidade imensa quando um cliente me diz que adorou a comida, que adorou o serviço, que adorou a nossa região ou o meu país e é mesmo isso que tento transmitir aos meus alunos.

CR – Que outros projetos tens para o futuro ao nível profissional?

AT – Gostava muito de entrar em projetos de consultoria, partilhar conhecimentos que fui adquirindo ao longo do meu percurso profissional e proporcionar, a pequenos empresários, que, na grande parte dos casos, entraram no mundo da hotelaria por mero acaso, ferramentas e bases que lhes permitam ter sucesso no seu negócio.

 

Muito obrigada, Adriana, pela tua colaboração nesta entrevista e pela dedicação diária à tua profissão. És exemplar!

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