Já lá vai o tempo em que viajar se resumia a fazer uma deslocação de comboio, carro ou avião, ir à praia, dar um passeio pela região e voltar para o hotel. O turista de hoje em dia procura coisas diferentes, atividades práticas que o façam esquecer da loucura que é o seu dia a dia e os seus problemas. O mercado respondeu, mas o público já não se satisfazia com o que existia. Foi preciso ir mais longe: trabalhar a emoção, a criatividade, a inovação. Oferecer o que nunca tinha sido pensado e dinamizar ainda mais. O futuro é dar continuidade a esta tendência e tal só será possível, porque a trabalhar na Animação Turística estão os melhores profissionais de sempre.

Hoje dou-vos a conhecer uma dessas pessoas. Ele é o Ângelo Tavares, que gosta, claro está, de aventura e desporto. Diz que o aborrece fazer as coisas à pressa, mas tem sempre pressa para fazer alguma coisa.

Fui saber um pouco mais sobre estas funções, este profissional e o seu percurso:

CR – Primeiro começa por trabalhar em animação e só depois decide estudar sobre o tema. Conte-nos um pouco sobre como se deu a junção entre a teoria e a prática.

ÂT – A animação surge após uma formação profissional em Design Gráfico e um breve contacto com o contexto de trabalho, que me fez perceber que aquele não era o rumo que queria para a minha vida, por isso, decidi procurar outras alternativas. No verão de 2013 estava a trabalhar no projeto voluntário “Natura Observa”, promovido pela Câmara Municipal de Cascais, onde fazia a manutenção do parque de campismo. Não era um trabalho aliciante, mas eu adoro desafios e levava este trabalho com entusiasmo. Um dia o meu coordenador chamou-me à parte e disse que gostava do meu entusiasmo e desempenho… perguntou-me: gostavas de fazer campos de férias? Foi-me então dada a oportunidade de trabalhar uma semana como monitor e, no ano seguinte, já estava a trabalhar como monitor de campos de férias, sendo que ainda tive a oportunidade de começar a trabalhar, ao longo do ano, nos desportos aventura e em eventos com escolas, empresas e outros grupos. Toda esta experiência incitou-me a fazer a licenciatura de Gestão do Lazer e Animação Turística na Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril, com o intuito de adquirir mais ferramentas. Em 2018, terminado o curso, tive a oportunidade de entrar na animação de resorts.

CR – O Ângelo sempre estudou e trabalhou. Como foi gerir esta responsabilidade?

ÂT – Trabalhar e estudar não é tarefa fácil. Saía de casa de madrugada e só regressava por volta da 1h da manhã. O cansaço por vezes era tanto, que era difícil manter os níveis de concentração nas aulas. Na luta por manter os olhos abertos, estudava entre as 16h e as 19h e de seguida apanhava os transportes para ir trabalhar. O cenário piorava quando se iniciavam os trabalhos de grupo. Era complicado, porque dependíamos muito uns dos outros (disponibilidade, motivação, personalidade, competências…). O trabalho acaba por nos distrair da faculdade e a faculdade do trabalho. A verdade é que chegamos a um ponto em que nos adaptamos e encontramos uma forma de gerir melhor o nosso tempo. Como? É simples: pedir apontamentos, aproveitar as folgas do trabalho e vice-versa para descansar e estudar e, quanto aos trabalhos de grupo, é encontrar colegas que compreendam a nossa situação, que se comprometam e que saibam trabalhar em equipa. Muitas vezes pensei em desistir, mas ajudou-me desabafar com a família e os amigos e, acima de tudo, focar-me no meu objetivo, não esquecendo o propósito da minha decisão em estudar. A experiência é gratificante no sentido em que aprendemos a gerir o tempo, as emoções, as relações, a produtividade e superamo-nos enquanto pessoas.

CR – Como avalia a área da Animação Turística em Portugal?

ÂT – É notório que somos um destino muito procurado pelo golf, sol e praia. Contudo, acredito que temos imenso potencial para ser mais. A animação turística, nas suas variadas vertentes, vai ganhando cada vez mais importância em Portugal. Ainda assim, a mentalidade tem de mudar e acredito que, através do bom aproveitamento dos recursos, planeamento e investimento, do qual todos possamos genuinamente beneficiar, chegaremos longe.

CR – Uma vez que tem as duas experiências, explique-nos quais as grandes diferenças entre o trabalho de animação outdoor e de animação hoteleira.

ÂT – A animação outdoor compreende todo o tipo de atividades recreativas, desportivas e culturais que realizamos ao ar livre, seja em zona urbana ou meio natural. Podem ser atividades como futebol, padel, caminhadas, corrida, yoga, arborismo, visitas a museus, concertos, piqueniques no parque… que realizamos no dia a dia e nos tempos livres. As mesmas se aplicam na animação hoteleira; a diferença é que esta se apresenta de uma forma mais estruturada, uma vez que existe todo um programa de atividades organizado com base nas tendências, idades e culturas dos diferentes clientes. Estas atividades podem ser realizadas indoor ou outdoor, mas sempre dentro do recinto do estabelecimento (salvas exceções).

CR – O que faz, exatamente, um profissional de animação turística?

ÂT – Um animador turístico é um intermediário no desenvolvimento de atividades no contexto natural, social e turístico e procura promover as relações interpessoais e a qualidade do tempo livre através da gestão, planeamento, organização e monitorização de atividades. É versátil, dinâmico, responsável, culto, capaz de entreter, criar empatia, comunicar em diferentes línguas, trabalhar em equipa, entre outras características. Portanto, está apto a trabalhar em empreendimentos turísticos (hotéis, resorts, apartamentos turísticos, parques de campismo…), empresas de turismo de aventura e natureza, organizar eventos de todo o tipo e trabalhar em teatros, centros culturais e parques temáticos, etc. Este tem o papel de educar para o lazer.

CR – Quais os maiores desafios que já enfrentou a trabalhar em animação e como lidou com eles?

ÂT – Os maiores desafios foram, sem dúvida, lidar com pessoas, comigo próprio e gerir a energia. Lidar com pessoas é inevitável, começando com os colegas de trabalho, chefes e clientes. Personalidade, idade, cultura, princípios, língua são tudo fatores que influenciam o nosso comportamento. A solução passou muito por aprender a comunicar e estar recetivo a conhecer novas culturas e diferentes formas de pensar. É preciso ter claro que isso não acontece se não aprendermos a gerir as emoções, técnica sobre a qual continuo a aprender e a trabalhar. Contudo, o maior desafio tem sido a gestão da energia que é indispensável na animação. Trabalho muitas horas. Atividades de dia, espetáculos de noite, horas extra em ensaios e ainda tentar ter vida própria. É esgotante e, a certo ponto, torna-se extremamente difícil gerir a intensidade que pomos nas nossas emoções. Horas de sono, boa alimentação, desconectar 100% do trabalho em tempo livre, apoiarmo-nos na ajuda de uma boa equipa ou na boa disposição e feedback dos clientes são alguns truques que uso para lidar melhor comigo e com a minha energia. Acima de tudo, gostar do que fazemos!

CR – Sabemos que a área do Turismo tem (ainda) muitas fragilidades, mas, se pudesse escolher só uma, qual a que nomearia como o grande problema a resolver e que solução apresentaria?

ÂT – Escolhia o respeito. São muitos os afetados pela chegada do turismo. Comunidades locais perdem qualidade de vida e negócios locais perdem valor de mercado com a chegada de grandes empresas. Um bom exemplo são as grandes cidades, onde a inflação da renda das casas obriga a que moradores locais se tenham de mudar. O turismo deve ser planeado e implementado de forma responsável para que todos beneficiem dele e que não se perca autenticidade.

CR – Envolve-se frequentemente com as causas em que acredita através de trabalho voluntário. Em que medida é que estas experiências o tornam um melhor profissional de animação?

ÂT – Ao fazer voluntariado sou determinado por uma causa em que acredito, estou atento às necessidades de terceiros, não me torno indiferente à realidade em que vivemos, procuro ser pró-ativo e dinâmico, ter impacto na sociedade e crescer com ela, torno-me mais humano e criativo. Como profissional, comprometo-me com estes ideais. Um negócio só é um negócio quando ambas as a partes saem a ganhar. Logo, se a indústria turística vive de pessoas, só prosperamos se todos ganharmos com o turismo.

CR – Que outros projetos tem para o futuro ao nível profissional?

ÂT – Fui escuteiro marítimo em Nova Oeiras durante 16 anos e penso que isso teve muita influência naquilo que, atualmente, são as minhas escolhas profissionais. Ter trabalhado em empresas como a Cascais Ambiente oua Pena Aventura Park e Adventure Park fizeram-me crescer e apaixonar-me pelos desportos de aventura e natureza. A curto e médio prazo pretendo especializar-me neste tipo de atividades e foi com esse intuito que decidi fazer uma formação de iniciação ao rafting, com a empresa espanhola Karma Turismo Activo. Também pretendo explorar outras atividades como o canyoning, na qual me quero especializar e estar creditado para formar profissionais. Quero fazer parte de uma equipa/ empresa com a qual possa crescer em conjunto, superar desafios, desenvolver projetos impactantes e sentir-me realizado. A longo prazo vivo na incerteza, pois nada é garantido e mal sei que oportunidades o futuro me reserva, mas sei que quero ser um excelente profissional e inspirar muita gente.

CR – Conte-nos uma história caricata que tenha acontecido no âmbito do seu trabalho e que queira partilhar connosco.

ÂT – O karaoke era um programa comum num resort onde trabalhava e que os clientes adoravam. Um dia uma cliente (meio embriagada) pediu-me para que a inscrevesse no karaoke. Já depois de a ter inscrito, insistiu que a colocasse em primeiro lugar da lista, por ser a sua última noite no hotel. Educadamente, pedi-lhe que fosse fazer o pedido às minhas colegas responsáveis pela atividade… Sem sucesso, voltou a abordar-me e, após lhe ter dito que não ia intervir, pegou-me no pulso e arrastou-me até à cabine do DJ – já decorria a atividade – e lá consegui que ficasse nos primeiros lugares da lista. A certo ponto fiquei assustado… só ao final de 15 minutos é que me soltou, deixando-me com uma marca no pulso. Depois de todo este drama, a senhora nem sequer foi cantar! Ao que parece, o hotel já tinha colocado todos os departamentos em alerta por causa de uma cliente que criava desacatos… Mais de 1000 clientes no resort e calhou-me a desordeira na rifa!

Muito obrigada, Ângelo, pela sua colaboração nesta entrevista e pela dedicação diária à sua profissão. É fabuloso!

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