O mundo dos eventos é verdadeiramente apaixonante, mas pode ser complexo. A organização, o planeamento e a avaliação são fundamentais para garantir que tudo corre como o cliente idealizou. Mas, antes disso, é preciso desenhar o projeto sonhado e, para conceber esses momentos idílicos, é preciso muita sensibilidade, experiência e dedicação por parte dos melhores profissionais do mercado.

Hoje dou-vos a conhecer uma dessas pessoas. Ela é a Carmen Bettencourt, uma açoriana apaixonada pela natureza, pelas pessoas, pelo mundo das viagens em geral, e pela organização de eventos, em particular.

Fui saber um pouco mais sobre estas funções, esta profissional e o seu percurso:

CR – Estudaste e trabalhas em Turismo. O que te motivou para esta área?

CB – Sempre gostei de comunicar e de dar a conhecer a “minha casa” a outras gentes, de “outros mundos”, principalmente em inglês. O primeiro passo, que julguei ser necessário, para dar continuidade a estas minhas humildes aptidões, foi tirar uma licenciatura em Turismo e Lazer, pela Escola de Turismo e Hotelaria – IPG. O meu percurso académico teve assim início em 2005 e término em 2008. Em Janeiro de 2009, tive a oportunidade de realizar um estágio profissional, na empresa Picos de Aventura – Animação Turística, nos Açores, onde permaneci, e ganhei alguma experiência, até terminar esta etapa da minha vida profissional, em 2013.  Depois deste primeiro desafio, estive a exercer funções de planeamento, coordenação e execução do projeto de animação turística “Meus Açores, Meus Amores”, no departamento de Turismo Inclusivo, na Cresaçor. Foi especialmente com este trabalho, e com a consequente monitorização do mesmo (a acompanhar grupos de turismo sénior, pelas ilhas dos Açores), que confirmei, de facto, o quanto gostava de contribuir para a realização de sonhos, conhecer pessoas novas e desenvolver a minha imensa paixão pelo destino Açores. Atualmente trabalho como Events Designer, na Abreu Events. 

CR – Ao longo do teu percurso já fizeste várias coisas dentro do Turismo. O que te leva a “estacionar” nos eventos?

CB – “Estacionei” na área dos eventos, por assim dizer, porque é um constante desafio e uma constante aprendizagem, a todos os níveis, e todos os dias! Cada evento, desde a sua idealização até à sua execução, é sempre único, e quase que incomparável, por assim dizer. Isto que faz com que o meu trabalho não seja monótono (algo com que não me identifico) e permite-me dar largas à minha imaginação, possibilitando-me, ainda, dar a conhecer o destino que mais amo às pessoas que o visitam e pretendem organizar os seus eventos, nos Açores, claro.

CR – O que faz exatamente um Events Designer?

CB – Um Events Designer idealiza, planeia e produz  todo o tipo de eventos. Tem que perceber exatamente o que é que o cliente pretende alcançar, com a realização do seu evento/ sonho, seja qual for a natureza do mesmo; tem que conhecer bem os seus parceiros/ fornecedores (não esquecendo a capacidade de negociação com os mesmos) para que também, e em conjunto, possam ir para além das expectativas desse cliente, e do que ele idealizou. Para tal, temos ainda que ter: uma forte capacidade de imaginação, sem dúvida alguma, e até mesmo uma grande capacidade de improviso. Isto porque, apesar de ser sempre impreterível um planeamento pormenorizado e rigoroso, tudo pode acontecer.

CR – Como caracterizas a área dos eventos em Portugal?

CB – Julgo que Portugal tem registado um crescente know-how, no que toca à organização de eventos, especialmente nos últimos 10 anos. No entanto, arrisco-me a afirmar que estamos só a começar. Não falo apenas em eventos de enorme relevância, a nível internacional, como é o caso da Web Summit, por exemplo. Falo também, por exemplo, de eventos que possam estar relacionados com a biodiversidade marinha do Oceano Atlântico, com o clima e as suas alterações constantes (que é um assunto cada vez mais emergente, para toda a humanidade, como bem sabemos), mas também a própria natureza, os nossos costumes, as nossas tradições e o nosso património (algum já bastante reconhecido, a nível mundial, como é o caso do Fado, por exemplo), não esquecendo a nossa fantástica e variada gastronomia, que a todos conquista com a sua qualidade. 

CR – Às vezes é difícil, especialmente por parte de quem não tem conhecimentos sobre Turismo, perceber de que forma os eventos estão integrados na atividade turística. Podes clarificar esta questão?

CB – A indústria turística é feita de pessoas e da consequente prestação de serviços a essas pessoas. Ao realizar um evento, como uma viagem de incentivo por exemplo, estamos a oferecer um destino turístico e todos os serviços que possam estar afetos ao mesmo. Por exemplo, precisamos de organizar os transportes, o alojamento, a alimentação e as atividades de lazer e/ ou animação para essas pessoas, que, por norma, vão deslocar-se do seu país de residência até ao local onde irá ocorrer esse evento. Ora, tudo isto é Turismo, logo, os eventos são, naturalmente, parte integrante desta indústria.

CR – Quais as vantagens e desvantagens da tua profissão atual?

CB – A grande vantagem da minha profissão é, acima de tudo, poder desenvolver/ explorar o que mais gosto, tal como já exposto anteriormente. A única desvantagem (que me consiga lembrar agora) é, por vezes, a dificuldade que tenho em conciliar a minha vida profissional com a minha vida pessoal. Esta área exige uma grande dedicação para garantir o sucesso de cada evento e, na maioria das vezes, longas horas de trabalho, longas deslocações e muito foco para conseguirmos o resultado esperado.

CR – Aconselharias esta área de trabalho a outras pessoas?

CB – Aconselho esta área de trabalho, sem dúvida alguma! Mas (e apenas) só para quem realmente gosta de aprender todos os dias, quem gosta de novos desafios e quem gosta de conhecer pessoas novas. Ah! E, principalmente, para quem tem a capacidade de pensar “fora da caixa”!

CR – Quais as tuas perspetivas de futuro a nível profissional?

CB – Julgo que ainda tenho muito para dar na área dos eventos. No entanto, há outras áreas do turismo que eu adoraria explorar um dia. Por exemplo, gostava imenso de promover os Açores, a nível internacional (feiras, por exemplo), dada a minha grande paixão e conhecimento do destino.

CR – Se tivesses uma lâmpada mágica e pudesses fazer um pedido pelo Turismo de Portugal, o que pedirias e porquê?

CB – Apesar de saber que vivemos num país pobre, com algumas desigualdades e com um ordenado mínimo muito baixo, não me parece descabido pedir mais justiça para os recursos humanos do turismo. Esta área traz muito dinheiro ao nosso país e às empresas e este é distribuído de forma muito pouco equilibrada. Os vencimentos são muito baixos, os contratos são precários e não há o mínimo de estabilidade para quem é apaixonado pelo turismo. Numa área onde se trabalha tanto com o trato humano, é preciso ter em atenção que precisamos de pessoas felizes a desempenhar as suas funções. Gostar do que se faz não chega. É preciso valorizar as pessoas com contratos que lhes deem o mínimo de segurança, vencimentos que reflitam o seu empenho e culturas empresariais acolhedoras e respeitosas. Não se pode continuar a esperar que as empresas se mantenham à custa de estagiários de verão, ou que uma pessoa continue a desempenhar a função de três ou que os recém-licenciados façam o seu trabalho com a competência de um profissional experiente, só porque aceitam trabalhar pelo ordenado mínimo. É com tristeza que vejo muitos colegas infelizes com esta situação e que, invariavelmente, os vejo abandonar a sua paixão, pois é uma situação incomportável.

CR – Conta-nos uma história caricata que tenha acontecido no âmbito do teu trabalho e que queiras partilhar connosco.

CB – Assim de repente só me ocorrem situações relacionadas com o desconhecimento profundo que muitos clientes ainda demonstram ter relativamente aos Açores. Por exemplo, não terem a mínima noção de que estão em território português; que, para ir de ilha para ilha, tem que ser por via aérea ou marítima; ou então a surpresa que mostravam por já termos Wi-Fi nas ilhas. 😀

Muito obrigada, Carmen, pela tua colaboração nesta entrevista e pela dedicação diária à tua profissão. És sensacional!

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