Começa a falar-se em retoma, reabertura de estabelecimentos, reativação de negócios e temo que as pessoas sejam invadidas pela ansiedade de prosseguir com as suas vidas e não tenham a consciência real do que está por vir.

Clarificando, o vírus Covid- 19 não desapareceu. Ele veio para ficar e para sempre. O melhor que temos que fazer é estudá-lo e aprender a viver com ele. É expectável que, futuramente, se encontre um medicamento curativo e/ ou uma vacina e poderemos, finalmente, viver livremente, mas, até lá não!

Então, porque é que estamos a ser impelidos a retomar as nossas vidas, a ir trabalhar?

Simples, é tudo uma questão económica. Se vivêssemos num mundo justo, em que as questões humanas prevalecessem sobre as económicas, ficaríamos parados, na segurança das nossas casas, até que esta crise sanitária fosse ultrapassada. Como não há coragem política para fazer o que deveria ser feito, temos que ir mantendo a máquina a mexer, mesmo que devagarinho, mesmo que nos estejamos a expor e que seja perigoso. Por outro lado, o Homem é um animal social e sabemos que este isolamento não é saudável, pelo que nos arriscamos a “morrer da cura”.

Assim, há que ser pragmático e objetivo: se nos protegermos e desenvolvermos todos os esforços de higiene e segurança que estão parametrizados, o risco de contrairmos o vírus é sobejamente menor. É uma questão de nos adaptarmos às novas regras de viver. No entanto, não nos enganemos, enquanto não houver uma solução concreta para lidar com a doença, estaremos muito limitados nas nossas ações e atividades, mesmo com toda a proteção que possamos usar. Até voltarmos à liberdade que tínhamos, vão passar-se largos meses e, seja como for, nada voltará a ser igual, há que encarar a realidade.

Confesso que fiquei especialmente preocupada quando, esta semana, ao assistir a uma determinada formação, a formadora partilhou algumas práticas que, com toda a certeza, terão que passar a ser implementadas pelos estabelecimentos hoteleiros, tais como:

  • colocação de proteções em acrílico nos balcões das receções;
  • serviço de pequenos almoços em diversas salas, com um número mínimo de pessoas por cada espaço, ou preparação de pequenos almoços personalizados;
  • reajustamento dos lounges, retirando cadeiras, cadeirões ou sofás, para impedir que se juntem muitas pessoas no local;
  • pausa de, no mínimo, quatro dias entre a limpeza de um quarto e a entrada de um novo cliente;
  • salas de restaurantes com 80 lugares terão que diminuir a ocupação para números muito inferiores, como 30, por exemplo, dependendo da área, para garantir um maior espaçamento entre as pessoas;
  • uma aposta muito maior e muito melhor na higienização dos espaços, com equipas de limpeza permanentes e produtos específicos, pois, mais do que saber, o cliente tem que ver que está seguro, entre outras sugestões.

Até aqui tudo bem, foi um ótimo contributo e foi de encontro àquilo que já havia projetado, mas, quando as respostas começaram a surgir, percebi que a maioria dos profissionais/ empresas de Turismo não estão cientes da realidade que expus nos primeiros parágrafos, pois o feedback era, maioritariamente, do género: “ah, isso no meu espaço não dá para fazer”, “se não entra dinheiro, como posso gastar ainda mais em produtos e pessoas?”, “isso não tem jeito nenhum”, “em hotelaria não se trabalha assim”, “não me posso dar a esse luxo, senão não ganho nada!”

Estava estupefacta! Colegas, percebam: numa fase inicial, em que o estado nos possibilitará voltar ao ativo, o vírus ainda constituirá uma ameaça e, por isso, teremos que nos adaptar a essa realidade e trabalhar com base nas regras de segurança determinadas pela Organização Mundial da Saúde, pelo Governo Português e, acima de tudo, aquelas que, indiretamente, a procura turística nos impõe. Se não houver clientes não há negócio, por isso há que transmitir-lhes confiança, para que se sintam seguros de que as normas de higiene e condicionamento social estão a ser escrupulosamente cumpridos, de modo a que venham adquirir os nossos produtos/ usufruir dos nossos serviços.

Não pode continuar a pensar nos números do passado, não pode continuar a pensar nos métodos de trabalho do passado, não pode continuar a resistir à mudança! Só tem duas opções: ou se adapta à realidade de viver com o vírus e sem cura ou opta por manter tudo como sempre e só retoma a sua atividade depois de chegar uma vacina/  medicamento. Até compreendo e sei que alguns negócios não sobrevivem com números tão pequenos como esta fase de transição vai proporcionar e, aí, tem uma decisão a tomar. Mas, antes disso, já pensou em criar novos produtos, novos serviços, angariar novos clientes, fazer as coisas de forma completamente diferente? Sei que estávamos habituados a triliões, mas já fez as contas certinhas sobre o seu negócio? Exatamente quanto precisa de faturar para ter a máquina a trabalhar, quantas pessoas precisa que o ajudem nessa tarefa, quantos produtos tem que vender para lá chegar, quantas pessoas tem que receber para atingir esses números? Básico para uns, nunca pensado por outros. Acredite, há pessoas em Portugal que têm empresas há anos e nem sabem o preço de custo do seu produto! Não pode ser! Se se enquadra neste conjunto de pessoas, há que começar a gerir a sua empresa ou contratar alguém que o faça, pois a diferença entre uma boa gestão e a ausência de gestão ou má gestão está, respetivamente, no sucesso/ fracasso do seu negócio. Trata-se de um investimento e não de perda de tempo e dinheiro!

 

Não desista antes de sequer tentar!

 

Pare de se focar no problema e reaja! Olhe para a sua empresa de forma estratégica, dê-lhe uma estrutura, analise os problemas, mas foque-se nas soluções, tire ideias da cartola, coloque-as em prática, teste, analise a recetividade, reestruture e aprenda com os erros. Reinvente-se mas seja gentil consigo próprio, domine a sua ansiedade, descanse, espaireça como puder, gira a pressão que põe sobre si mesmo, peça ajuda, mas resista!

Eu acredito que tudo é possível, mesmo uma mudança completa de paradigma, de modo a adaptarmo-nos a uma pandemia. O Homem tem, sim, essa capacidade, o Turismo tem, sim, essa capacidade, mas será que quer?

 

Trata-se de uma escolha, qual a sua?

Conte-me tudo, vou gostar de saber!

 

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