Embora seja uma atividade que existe desde sempre, o Turismo, como hoje o conhecemos, é muito recente. Devido à melhoria das condições de vida, à liberalização das viagens, à globalização, à facilitação da movimentação de pessoas, à mudança cultural relativa aos momentos de lazer e à maior literacia por parte dos povos, o Turismo têm-se desenvolvido com grande fulgor nos últimos 10/ 15 anos.

No que a Portugal diz respeito, foi feita uma grande aposta na marca “Portugal”, de modo a gerar maiores fluxos de incoming. A estratégia foi resultando e foi possível investir em mais e melhores infraestruturas de apoio, quer ao nível do alojamento, quer ao nível dos eventos, quer ao nível dos produtos existentes no mercado. Foi mesmo necessário criar novas atrações e formas de fazer Turismo que nem sequer existiam e vieram contribuir para o fortalecimento da imagem de marca do país, para o seu crescimento económico e para a contratação de milhares de pessoas.

Os impactos negativos do Turismo, especialmente quando praticado de forma massificada, como se verificava no nosso país, são indiscutíveis, mas esse será um tema para outro dia. Onde quero chegar é que o Turismo em Portugal atingiu níveis históricos nunca antes conseguidos e era uma atividade de 24h/ 366 dias por ano. Evoluiu de uma forma inesperada e com uma velocidade extenuante. “Este ia ser o nosso melhor ano”, dizem todos os empresários do setor, com quem converso. E aqui está a pérola deste texto: agora é possível conversar com as pessoas do Turismo de Portugal. As pessoas pararam finalmente.

O caro leitor pode até ter uma perspetiva diferente, mas a experiência diz-me que o Turismo sempre se caracterizou por ser solitário, resguardado e competitivo. Trabalhamos em rede, o Turismo é um sistema, todos se conhecem e muito facilmente criamos conexões entre as áreas que dependem umas das outras para existir, mas, nesta selva onde apenas o mais forte sobrevive, não há muito espaço para correlações. Uma das estratégias que se propunham para o crescimento (já na altura em que comecei a estudar Turismo), como determinantes, de máxima importância e, até, inovadoras, era, imagine, as parcerias. Hoje esta continua a ser a estratégia de que ainda se fala, ou seja, evoluiu-se muito pouco ou nada na união de esforços para chegar mais longe. Isto verifica-se a nível micro, quando falamos de empresas e pequenos produtores, por exemplo, mas também a nível macro, quando há competição entre as diversas regiões do país. Bem sei que existem bons exemplos e de muito sucesso, mas, esses, são, infelizmente, ainda uma minoria. O esforço tem de ser maior, a estratégia tem de ser concertada como se de uma cultura organizacional se tratasse e todos, absolutamente todos, têm de entrar nesse espírito e perceber que a concorrência não tem de ser “um alvo a abater”. Há que mudar a mentalidade e apostar em estratégias mais humanas, mais cooperativas, mais unificadoras.

Com a pandemia instalada, creio que este espírito finalmente emergiu. Temos assistido a verdadeiras demonstrações de empatia, colaboração, apoio, entreajuda, solidariedade e responsabilidade social. Como somos muitos e todos sabem o que o colega está a passar, o mínimo que podemos fazer é disponibilizarmo-nos para ajudar, cada um à sua maneira e como pode, para que este setor sobreviva a este embate. Desde webinars, talks, formações, apelos, mensagens, entrevistas, iniciativas como o “Juntos voltamos já” ou a mera partilha de contactos ou ideias, já é muito para quem agora ficou sem absolutamente nada. E faz toda a diferença. Há um sentimento de pertença, de orgulho, de reconhecimento e valorização que antes não sentíamos porque estávamos todos demasiado ocupados para parar, olhar para o lado e ver que ali estavam Pessoas com quem podíamos comungar. No meio de tanta angústia, há ações que merecem ser valorizadas e esta união é de destacar. Este é o caminho.

O Turismo não é só a área que serve para enriquecer o país e ser atacada quando cai (porque é feita de uma cambada de gananciosos que quiseram tudo por nada, como tanto se ouve por aí). Não, caro leitor, o Turismo é feito de Pessoas que arregaçaram as mangas e lutaram por uma vida melhor, de Pessoas que abdicam de muito para trabalhar numa área apaixonante mas extenuante, de Pessoas altruístas e empáticas que escolheram trabalhar quando todos os outros se divertem, de Pessoas trabalhadoras e honestas, que dão todos os dias o seu melhor para concretizar sonhos, de Pessoas que nasceram para servir em troca de um sorriso, um agradecimento. Se não há casos de oportunistas e incompetentes? Claro que sim, isso existe em todo o lado e o Turismo não é exceção, mas gostaria que ficasse com a ideia clara de que esta é uma área de atuação séria e que merece toda a nossa solidariedade, todo o nosso apoio, porque se o Turismo vencer, vencemos todos.

 

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