Talvez não se aperceba, mas o Turismo é uma atividade relativamente recente no que à história diz respeito. É verdade que se pratica desde tempos ancestrais, mas só a partir de meados do século XIX se começou a dar-lhe alguma atenção, a definir alguns conceitos, a encará-lo como atividade organizada. É neste século XXI que a maioria das pessoas lhe dá algum crédito, mas ainda muito há a fazer para valorizar a sua real importância.

Dada a sua volatilidade, tudo o que mexe com a movimentação das pessoas tem um impacto direto ou indirecto no Turismo. É bonito dizer que gera milhões e que tem crescido exponencialmente, que dá trabalho a muita gente, mas acredite, este é um setor que acaba por ter que “equilibrar muitos pratos ao mesmo tempo” e a maioria das empresas vive diariamente em esforço. Por um lado, quando as coisas correm bem, podem correr muito bem, mas, por outro, quando correm mal, podem correr mesmo muito mal. De qualquer das formas, está relativamente habituado a certos arrombos. Cai, mas levanta-se! Se todos sobrevivem? Claro que não, só os mais fortes. E não falo de dinheiro ou força bruta, mas de estratégia, capacidade de antecipar as dificuldades e de ação quando surge o momento.

Muitas têm sido as ocasiões na história da humanidade que impactaram fortemente esta atividade e, apenas para dar alguns exemplos, refiro o 11 de Setembro de 2001, os vulcões em erupção na Islândia em 2010 ou a Primavera Árabe em 2010/2013. Os danos colaterais são imensos e mudam o rumo de qualquer profissional, qualquer empresa, qualquer economia. Sentem-se localmente, regionalmente, nacionalmente e, em última análise, mundialmente.

Ainda assim, nada faria prever o embate dantesco que este tal de Covid-19 viria trazer. À data em que escrevo estas palavras, ainda ninguém consegue prever a dimensão real de tudo o que está a acontecer, para toda a humanidade, em nenhum dos sectores de atuação. Ainda não sabemos, sequer, se sairemos desta vivos. Uma coisa é certa: se sobrevivermos, os danos serão simplesmente catastróficos ao nível global.

Hoje, e ao que ao Turismo diz respeito, posso partilhar o que tenho vivido no decorrer das últimas semanas em que o vírus se instalou em Portugal e corre esse mundo fora livre e solto, sem pedir permissão a ninguém: mudanças a todo o momento, instruções novas a cada hora, cancelamentos em barda, ausência total de reservas, medo, muito medo, desespero algum, pânico de sobra. Profissionais completamente perdidos, sem saber o que fazer nesta situação anómala, mas que não desarmam e mantêm posições, para continuar a acolher quem têm em mãos da melhor maneira possível, que tentam fazer chegar famílias às suas casas, que tentam remediar o irremediável, que lidam o melhor que sabem com queixas, receios e angústias. Estão exaustos, mas permanecem firmes e hirtos na frente batalha.

Algumas empresas já tiveram a sensatez de fechar portas, outras de mandar os seus funcionários trabalhar remotamente, mas outros, caro leitor, na verdade muitos, continuam a enfrentar o medo e a sorrir a cada “bem-vindos ao hotel X”, a cada “estaremos disponíveis para o que precisar”, a cada “o restaurante que procura fica no local Y”. É que esta área lida com as emoções, com os sonhos. É que neste ramo, poucas são as funções que permitem a distância. É que o Turismo faz-se na rua e com Pessoas, com contacto, com afetos.

Não nos enganemos, jamais esta indústria será vista, vivida, experienciada da mesma forma. A maioria das pessoas só quer que tudo volte ao normal, que volte a ser como antes. Mas sabe que mais? Nunca mais será igual. Nunca mais! O impacto real vai ser tão grande e estará presente durante tanto tempo que dificilmente se conseguirá medir com detalhe. E face a isto, o que fazer? A palavra é: reinventar.

Apesar do exposto, acredito fortemente que a recuperação vai ser relativamente rápida. Ainda ninguém sabe muito bem o que esperar deste vírus doido, mas se analisarmos as previsões dos especialistas, e num cenário animador, penso que no início de 2021 vamos começar a ver algumas movimentações e que no verão desse mesmo ano as empresas vão começar, finalmente, a respirar. Aquelas que sobreviveram, claro, porque, na realidade, muitas não vão conseguir. Como, pelo menos, tentar?

Na minha opinião, algumas ações são necessárias por parte das empresas, que podem muito bem ser sugeridas e/ ou implementadas pelos colaboradores:

  • Primeiro que tudo as Pessoas: lembre-se que os recursos humanos no Turismo são essenciais e que têm que ser valorizados, sem eles não há negócio; reúna a equipa e lidere-a: tranquilize as pessoas e transmita-lhes segurança; ouça o que têm a dizer – os seus receios, mas, acima de tudo, as suas ideias; este momento exige união e todos compreendem a dificuldade da situação, por isso, se lhes permitir, vão concentrar esforços para ultrapassar esta crise; de seguida, zele pela sua segurança e mande-os para casa;
  • Vá mantendo o contacto com os seus colaboradores e ponha-os a trabalhar em estratégias para reinventar o negócio; vão gostar de contribuir, ter uma ocupação e saber que as suas ideias são valorizadas;
  • Não espere que o estado lhe resolva todos os problemas, porque isso não vai acontecer, mas esteja atento aos apoios que estão a ser estudados e vão existir; use tudo o que puder, estamos em guerra;
  • Ponha tudo em cima da mesa, mastigue bem as ideias de todos, estude as possibilidades, analise as hipóteses, delineie um plano de ação e ponha-o em prática;
  • Mantenha sempre relação com os seus clientes através de todos os meios que estiverem ao seu alcance; tranquilize-os e diga-lhes que poderão continuar a contar com a sua empresa e os seus serviços, agora e em que moldes, ou em breve e de que forma; mostre-lhes que continuam a trabalhar na melhor estratégia para satisfazer sempre as suas necessidades; conte-lhes novidades; reforce o seu posicionamento;
  • Aposte em parcerias estratégicas: agora, mais do que nunca, é tempo de união! Todo o setor terá que enfrentar esta situação e será muito menos doloroso fazê-lo acompanhado;
  • Se for preciso tome medidas mais drásticas, garantindo que faz tudo o que está ao seu alcance para garantir o bem estar de todos os envolvidos no seu negócio e, assim que possível, reerga-se e volte a contratar aqueles que tanto lhe dedicaram;
  • Em todo o processo, leve ele o tempo que levar, nunca baixe os braços; as mangas sempre arregaçadas, a cabeça sempre erguida;
  • Reinvente, reinvente, reinvente: reinventar significa ser criativo e pensar em soluções estratégicas que lhe permitam alavancar, ou mesmo mudar todo o seu modelo de negócio, de modo a sobreviver aos próximos tempos; lembre-se que o Turismo é feito desta forma até aqui, mas nunca mais vai ser igual; pode bem criar novos produtos, novas soluções, novas formas de fazer Turismo;
  • Encare esta situação como uma oportunidade de rever alguns processos, de modo a eliminar fraquezas, a não cometer erros do passado, a adotar novas formas de atuar, a ouvir mais as suas pessoas, a respirar e a aprender com tudo isto;
  • Tenha sempre, e acima de tudo, muita calma, serenidade e otimismo; lembre-se que nada dura para sempre e o Turismo vai recuperar sim!

 

Força, coragem e determinação e vamos todos ficar bem!

 

E você, tem alguma sugestão que queira acrescentar para ajudar os empregados e os empregadores do Turismo a recuperar?

 

Conte-me tudo, vou gostar de saber!

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