Até há bem poucos anos, viajar de avião não era acessível a qualquer um. Era um meio de transporte das elites. Com a liberalização das viagens e a melhoria das condições de vida, andar de avião transformou-se numa possibilidade para quase todos.

Para que a segurança dos passageiros seja garantida e tenham a melhor experiência de viagem possível, os Assistentes de Bordo dão, diariamente, o seu melhor em cada voo, a cada momento.

Hoje dou-vos a conhecer uma dessas pessoas. Ela é a Cristina Almeida, de Portugal de nascença e coração, da Europa de profissão, mas do Planeta Terra de crença! Considera-se uma pessoa multifacetada, apaixonada pela viagem e por tudo o que dela advém, pela vida e pela família, que é sempre a sua base sólida quando está de regresso.

Fui saber um pouco mais sobre estas funções, esta profissional e o seu percurso:

CR – Porquê Turismo? Conta-nos um pouco sobre as tuas escolhas e o teu percurso.

CA – Turismo porque é multifacetado, tal como eu! Acabada de completar o ensino secundário em Humanidades surge a questão…E agora? Tinha uma certeza: queria continuar a aprender. Adorava línguas, comunicar, compreender o próximo, artes e dança. Faculdade de Letras? Psicologia? Ensino Superior em Dança e Artes Performativas? Ao folhear o guia para o Ensino Superior de 2000/01, descobri o curso de Turismo, cujo conteúdo era um apanhado de tudo o que gostava e, ainda por cima, estava interligado à “arte” de viajar e conhecer outras realidades, assim como à “arte de receber,” de dar a conhecer o que “é nosso,” ao conhecimento intercultural… a algum belo “destino” me iria levar! Na altura, o curso de Turismo ainda era prematuro e para visionários. Poucos percebiam o que se estudava em Turismo e para quê! Hoje em dia não é preciso sequer explicar, pois Portugal vive um “boom” turístico como nunca antes visto. E é quando os profissionais de Turismo são imprescindíveis, não só pela óbvia razão da extrema procura, mas principalmente para estudarem e implementarem medidas de equilíbrio sustentável a longo prazo. Após um verão de experiência a trabalhar nos postos de Turismo da Câmara Municipal do Porto no mesmo ano em que completei a licenciatura, a minha ânsia de ter uma experiência profissional noutro país, assim como de ir conhecer o “mundo”, falou mais alto. Comecei à procura de possibilidades e, ao ver o anúncio de entrevistas para assistente de bordo, pareceu-me a combinação perfeita naquela altura da minha vida! Ingressei na Ryanair em Fevereiro de 2008 e escolhi a base operacional de Londres Stansted. Em Novembro de 2010 fui transferida para a base do Porto, um ano depois da sua abertura. Foi bom regressar às origens após quase três anos de ausência de Portugal e de experiência pessoal e profissional noutros países. Agora sim, estava pronta para ficar em Portugal. Hoje em dia, para além de assistente de bordo, também constituí família e sou Mãe de uma menina de três anos de idade!

CR – O que faz exatamente uma Assistente de Bordo?

CA – No horário da manhã em que a descolagem é por volta das 6h30, há que acordar às 4h, tomar banho, tomar o pequeno-almoço, fardar e conduzir até ao aeroporto, para estar, uma hora antes da partida, pronta para o briefing com a tripulação estipulada para os voos que foram atribuídos. A bordo, cada um na sua posição pré-definida no briefing, assistimos ao embarque dos passageiros, fazemos a demonstração de segurança, preparamos a cabine para a descolagem, iniciamos as tarefas de vigilância, segurança e conforto durante o voo, preparamos a cabine para a aterragem, assistimos ao desembarque e preparamos a cabine para o próximo voo. O dia pode ter um total de dois a quatro voos, o que significa que pode terminar quer às 13h, quer às 17h. Por vezes podem ocorrer imprevistos que atrasam o dia, como os meteorológicos, por exemplo, pelo que devemos manter sempre o espírito e mente abertos para o inesperado, assim como para lidar com as queixas, as reclamações e as indisposições dos passageiros da melhor forma possível. Somos não só agentes de segurança e conforto, mas também psicólogos, socorristas e prestadores de serviços aos passageiros! Após terminado o dia, voltar a conduzir até casa, para o merecido descanso e reestabelecer energias para o dia seguinte. O horário da tarde tanto pode começar às 12h como às 16h e terminar por volta das 23h30, se não houver atrasos!

CR – O teu percurso é muito especializado. O que te apaixona nesta profissão para te manteres nela há mais de 12 anos?

CA – O trabalho em equipa, que é imperativo nesta profissão e consegue fazer com que pessoas de nacionalidades, culturas e backgrounds diferentes, que nunca se viram antes, colaborem umas com as outras, no sentido de proporcionarem o melhor dia possível para a tripulação e o melhor voo para os passageiros. Numa base operacional grande, como é a de Londres, esta é a realidade quase diária. No meu último dia lá, eu nem nunca tinha visto a chefe de cabine e vice-versa durante os três anos em que lá estive! Na base operacional do Porto, comparativamente mais pequena, acabamos por nos conhecer melhor como colegas de trabalho, contribuindo para uma performance de excelência a bordo. Isto faz toda a diferença no sucesso e qualidade do serviço, principalmente quando falamos de colegas que já têm tanto tempo de experiência. No entanto, é sempre bom ter colegas novos empenhados e motivados. São uma lufada de ar fresco. Por outro lado, e como não podia deixar de ser, também me apaixona este contacto diário com inúmeras pessoas de várias partes do mundo, e sentir que posso fazer a diferença na experiência de voo delas, por mais subtil ou óbvio que seja esse contributo.

CR – E quais os maiores desafios que enfrentas no desempenho das tuas funções?

CA – Manter uma boa performance nas últimas horas de um dia de trabalho de quase 12 horas, quando o corpo já só sonha em cair numa cama desde a ponta dos cabelos até à ponta dos pés!

CR – Sempre houve um estigma muito grande em relação a esta profissão, relativo ao género, à idade e à imagem. Ainda sentes isso no teu dia-a-dia e como lidas com a situação?

CA – Pela experiência que tenho, esse é um estigma desactualizado e está mais no imaginário das pessoas que não estão por dentro da aviação! Já não faz sentido sequer falar de género, pelo menos em relação aos assistentes de bordo. Quanto aos pilotos, ainda são mais homens do que mulheres, mas as mulheres piloto são tão ou mais competentes! Há mais reparo no género dos pilotos por parte dos passageiros do que por parte das tripulações. Não escondo que me enche de orgulho quando tenho um piloto do género feminino no comando do avião, mas é um orgulho pessoal e não por sentir qualquer tipo de estigma em relação a isso. Quanto à idade e imagem, podem ser claramente uma porta de entrada para uma entrevista, mas o critério de selecção não se fica por aí! De qualquer das formas, penso que isso se aplica não só à aviação, mas também a outras profissões. Uma cara simpática e bonita é sempre um bom cartão de visita, mas esta profissão exige mais do que isso quer a nível físico, quer psicológico. Para quem está de fora parece fácil e que estamos ali só para servir comida e bebida e a desfilar na cabine, mas no séc. XXI, é muito mais do que isso. Normalmente só se tem a real noção quando há um caso de emergência e temos de agir consoante a situação e aplicar aquilo para o qual fomos treinados, o que, felizmente, acontece quase nunca, tal como é de esperar. Mas nós (quer tripulantes de voo, quer engenheiros aeronáuticos, quer os colegas de apoio ao embarque e desembarque em terra), estamos lá todos os dias exatamente para assegurar que situações dessas não acontecem.

CR – Há outras áreas, dentro do Turismo, que gostarias de explorar?

CA – Claro que sim! Ser uma valorizada tour leader no meu país. Quando falo em valorizada, falo a nível salarial, pois em qualquer profissão é assim que se dá valor ao trabalho! Sei que o faria por paixão, mas ninguém vive só de paixão. Também gostava de desenvolver o meu próprio projecto turístico, que passaria por percursos turísticos pelo Portugal menos conhecido, logo mais genuíno, e por proporcionar experiências de relaxamento e bem-estar, retiros meditativos e de detox tecnológico…ideias há muitas! Não são nada de novo, mas é onde me vejo a atuar.

CR – Há algum truque ou dica que possas partilhar connosco em relação a lidar com clientes “mais difíceis”?

CA – Manter o foco e não levar nada pessoalmente. Há pessoas que conseguem ser bastante desagradáveis, mal-educadas e só querem descarregar a frustração delas em alguém. Nós somos quase sempre o alvo, pois vestimos as cores da companhia, mas não somos responsáveis pelo que acontece fora da cabine. Há situações que nos ultrapassam e em relação às quais nada podemos fazer, a não ser aconselhar à reclamação pelos meios certos. Quando a reclamação é da nossa competência resolver, há que manter o foco e ouvir o lado de lá. Não ignorar e demonstrar que estamos a fazer ou fizemos tudo o que nos é permitido e está ao alcance. Mais do que isso já é pedir demais e há que passar à frente!

CR – É possível, passando a vida a viajar e a conciliar horários diversos, manter o “work life balance”?

CA – É um desafio, mas não é impossível. Depende do estilo de vida que queiras ter e da fase da vida pela qual estás a passar. Quando estamos por nossa conta é mais fácil manter esse “work life balance” e, para quem faz longo curso ou jets privados, a própria profissão em si é um estilo de vida! No entanto, uma alimentação saudável, hidratação e exercício físico devem ser uma constante. É uma profissão de desgaste rápido (apesar de não o ser oficialmente, por mais ridículo que pareça) e passados uns anos já se faz sentir o efeito, pelo que deveria ser obrigatório por lei reduzir a carga de horas de voo permitidas por ano, a partir de, pelo menos, dez anos a voar. Há companhias que o fazem, mas porque têm consciência do desgaste. Somos expostos à pressurização e despressurização do ar que respiramos na cabine várias vezes ao dia, à radiação cósmica, a horários por turnos, já para não falar do jet lag no longo curso. Mas isto já é tema para outra palestra! Outro estigma/mito que existe em relação a esta profissão é de que não se pode constituir família. Para nós, que fazemos Europa e Marrocos, e voltamos todos os dias a casa, é perfeitamente possível. Temos trabalhos por turnos? Sim. Os polícias, médicos e enfermeiros também e não deixam de ter vida pessoal e familiar. É uma logística diferente e fora da norma, mas completamente legítima.

CR – Quais as características que consideras ser mais importantes para se ser um bom Assistente de Bordo e porquê?

CA – Pela dinâmica que se vive e que transmiti, ao longo das questões anteriores, é fundamental ser facilmente adaptável, flexível e ter excelente habilidade de trabalho em equipa e num ambiente multicultural. Ter uma boa capacidade de organização e resolução de problemas, mesmo sob pressão, uma capacidade intrínseca de criar empatia e um elevado sentido de responsabilidade e disciplina.

CR – Conta-nos uma história caricata que tenha acontecido no âmbito do teu trabalho e que queiras partilhar connosco.

CA – Uma vez tive um passageiro inglês, quando ainda estava baseada em Londres Stansted, que, a meio do voo, chama por mim e me pede que chegue mais perto dele e, num tom de voz muito baixo, me pergunta se pode mudar de lugar, pois o senhor que estava sentado atrás dele estava a borrifar alguma coisa tóxica para cima dele. De certeza que o queria matar e ele tinha de mudar de lugar!!! Nisto, eu olhei para o senhor que estava atrás dele e vi que estava encostado a dormir. Claramente o passageiro que me chamou estava com alguma psicose. Fui procurar um lugar livre e mudei o passageiro de lugar, nem que fosse para acalmar o psicológico dele. Tudo tranquilizou até ao desembarque, em que todos saíram menos ele. Não saía do lugar. Fui ter com ele e disse-lhe que já podia desembarcar. Ele nem sequer olhava para mim e disse que só saía acompanhado pela polícia, pois tinha a certeza de que o outro passageiro estaria à espera dele para o matar!! E foi isso mesmo que tivemos de fazer.

 

Muito obrigada, Cristina, pela tua colaboração nesta entrevista e pela dedicação diária à tua profissão. És fenomenal!

 

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Se é um profissional de Turismo e gostaria de ser entrevistado no âmbito da rubrica “Os Incógnitos do Turismo de Portugal” entre em contacto comigo, vou gostar de o conhecer!

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