Há uns dias falava com uma aluna minha sobre os estágios. Está muito indecisa sobre a área a escolher porque tem ouvido muitas coisas. Más. Claro que tentei perceber melhor o que ela queria e, de acordo com as suas características pessoais e objetivos, dei-lhe a minha opinião, dentro dos meus conhecimentos e experiência. Mas fiquei a pensar que esta ansiedade seria tão evitada se as empresas pensassem nos seus colaboradores como clientes internos. Infelizmente esta perspetiva está a anos luz em Portugal. E no ramo do Turismo então… É pena!

Quando lhe perguntei: “Maria, porque é que não queres estagiar num hotel?”, ela responde: “Ai stôra, tenho amigos meus que já estagiaram em hotéis e aquilo é uma exploração, as pessoas são maltratadas, o ambiente é tóxico, até já ouvi falar num que passou o estágio todo no economato a contar batatas!” Este é só um exemplo, porque já vi, ouvi e vivi coisas que não passam pela cabeça do ser mais criativo do universo!

Empresas do turismo!

Estão a ver onde se estão a posicionar com este tipo de atitudes?

Quem é que vai querer trabalhar em turismo com esta imagem do mercado de trabalho?

Percebam:

  • Os estagiários são os profissionais do futuro, são pessoas em formação, estão em processo de aprendizagem e as vossas empresas fazem parte dele.
  • Quer seja um estágio curricular ou um estágio profissional, ou mesmo um estágio “voluntário”, a pessoa que ali está não serve para fazer tudo aquilo que mais ninguém quer fazer, para fazer só os trabalhos mais aborrecidos, ou para ser constantemente “praxada” por ser estagiária e, muito menos, para substituir um profissional que devia ter sido contratado, mas não foi porque vocês não querem ter esse custo.
  • Estagiário é gente! E já conheci alguns bem mais empenhados e trabalhadores do que certos colegas com anos de experiência!
  • A ideia é que os alunos vão colocar em prática os conhecimentos adquiridos, ao longo dos últimos anos, nas escolas e as vossas empresas e os vossos funcionários têm, sim, a obrigação de os ajudar, apoiar, ensinar, formar, orientar!
  • É uma formação on job. Já ouviram falar?
  • E não, eles não têm que saber tudo só porque estão a tirar um curso. Comentários como “Não sei o que é que andam lá a fazer na escola que não sabem isto”, ou “Como é que estás na faculdade e não sabes isto?”, ou mesmo “Que raio de professores tens lá que não te ensinaram isto?” só servem para minar a confiança destes jovens profissionais, fazer destilar o vosso veneno e encher o vosso ego. Lembram-se quando começaram? Sabiam tudo? E hoje, já sabem? Mais empatia por favor!

Não se querem dar a este trabalho? É simples, não entrem no jogo. Ninguém é obrigado a aceitar estagiários. Um estágio é uma coisa que exige tempo e dedicação por parte da equipa. Se a empresa não tiver os recursos necessários ao desenvolvimento do estágio, mais vale não receber os estudantes, porque vão ser encarados como um fardo e não vai correr bem para nenhuma das partes envolvidas. Mas, se os aceitam, ou até partiu da vossa empresa a iniciativa de abrir as vagas, então tomem algumas medidas fundamentais:

Criem um plano de estágio e façam ajustes se necessário. Antes do início do estágio, será importante delinear um plano de trabalho para os próximos meses. Se este plano for traçado entre os três intervenientes: estagiário, tutor na empresa e orientador da instituição de ensino, tenho a certeza que será direcionado quer para as necessidades da empresa, quer para as expetativas do estagiário e de acordo com os conhecimentos que foram transmitidos ao longo do curso. Ainda assim, este plano deve ser flexível e ajustado se alguma das partes considerar necessário e as duas chegarem a um consenso. Há que haver comunicação e uma relação de entreajuda em todo o processo para que o estagiário e a empresa tirem o maior partido desta experiência. 

Coloquem em prática. De nada vale traçar um plano se depois “não bate a bota com a perdigota”, ou seja, definir um plano de trabalho todo bonitinho e depois pôr a pessoa a tirar fotocópias durante três, seis ou nove meses é de levar qualquer um à loucura! Todos gostamos de nos sentir úteis no local de trabalho, por isso vejam como é que a empresa pode beneficiar com a entrega do estagiário, ensinando-o, em paralelo, a potenciar as suas qualidades e a adquirir novas competências.  

Formem e informem a equipa sobre a chegada do estagiário. Quantas vezes tive alunos a relatarem esta questão: chegam às empresas no dia e hora marcados e ninguém sabe da sua chegada. A pessoa responsável não se encontra e não passou qualquer diretriz sobre o estagiário ou onde devia ser colocado e a fazer o quê. Na realidade, nunca mais se lembraram deles! Ficam ali, a sentir-se meio abandonados, inúteis e desajeitados. Será, então, fundamental que todos na empresa tenham conhecimento da chegada do estagiário e que sejam encorajados a praticar a inclusão. Qualquer colega deverá disponibilizar-se a ajudar quando abordado, aliás, esta é uma máxima a pôr em prática com qualquer elemento da empresa e não só com estagiários!  

É importante que o estagiário tenha um tutor na empresa. Esta pessoa não serve só para assinar a documentação exigida pela escola ou pelo IEFP (Instituto do Emprego e Formação Profissional). Ambos devem ter horários semelhantes para que o tutor possa acolher o estagiário, apresentá-lo à equipa, integrá-lo, ensinar-lhe os procedimentos internos, passar-lhe as principais tarefas, ensiná-lo a desempenhá-las e acompanhá-lo ao longo de todo o processo. O tutor também deve dar reforços positivos ao estagiário e incentivá-lo a ser proativo, autónomo e autossuficiente, disponibilizando-se, no entanto, para o ajudar e apoiar sempre que necessário. Esta figura também deve estar atenta à motivação e dificuldades demonstradas pelo aprendiz, de modo a reposicioná-lo e fazer com que o seu contributo seja valorizado. Naturalmente também o deverá corrigir quando as suas atitudes ou o seu desempenho não correspondam ao esperado, sempre numa perspetiva construtiva e agregadora. O tutor tem que ter tempo, espaço e compensação por este trabalho!

Deve haver uma fase de integração com formação interna. É verdade que as aprendizagens vêm com o tempo e a prática, mas, independentemente desta ser a primeira experiência do estagiário ou não, ele não será ainda muito desenvolto, por isso precisa de uma atenção redobrada nos primeiros dias de trabalho na empresa. Apresentem-lhe o espaço, as pessoas, expliquem como se desenvolve um dia habitual naquela empresa e ensinem-lhe como deverá desempenhar as suas funções. Demonstrem! Entregar um calhamaço de procedimentos ou sentá-lo junto a um colega não é suficiente. Dêem-lhe tempo e percebam que cada um tem o seu ritmo. Exijam empenho e dedicação, mas nunca, nunca, nunca de forma destrutiva.

Ouçam o estagiário. O estagiário não está ali para fazer o que lhe mandam e mais nada. O estagiário é um ser humano com conhecimentos, vontades e ambições. Ele está disposto a ajudar no que puder, mas também gostaria de dar opiniões ou contribuir mais nesta ou na outra função. Será que o poderão ouvir? Talvez se surpreendam.

Encarem o estágio como aquilo que é: uma relação win-win. Esta é uma relação em que ambas as partes têm a ganhar: o estagiário com a oportunidade de aprendizagem e a empresa com a ajuda que ele lhe vai dar ao longo dos próximos meses. Este é o elemento mais básico, mas, por princípio, os estágios deveriam servir para a integração efetiva nos locais de trabalho. Raramente acontece.Informem-se acerca da avaliação. Ao longo dos anos já vi muitas injustiças serem cometidas na avaliação dos estagiários devido a, fundamentalmente, dois fatores: a) quem avalia o estagiário não acompanhou o seu trabalho; b) quem avalia o estagiário não sabe fazê-lo. Em relação à primeira questão, deverá, na minha opinião, ser o tutor a responsabilizar-se pela avaliação do estagiário, mas, se não tiver mesmo possibilidade de o acompanhar ao longo do estágio, pelo menos reúna-se com as pessoas que lidaram com ele e que podem dar-lhe um feedback fidedigno. Quanto à segunda questão, tudo bem, nem todos são professores ou sabem avaliar, é normal. O que não é normal é fazer cruzinhas “ao calhas” e sem qualquer sentido de justiça. Peçam ajuda, os professores são sempre pessoas super disponíveis e o orientador do estagiário também serve para isso. 

Todas estas questões partem de um princípio de cultura empresarial com base em valores como o respeito, a harmonia, a cortesia, o civismo, a paz, a entreajuda e o equilíbrio. Se ela já estiver implementada e enraizada, nem são precisas técnicas específicas para estagiários, porque eles serão acolhidos e tratados como qualquer colega que está a iniciar o seu percurso. Gostaria de não ter que escrever estas palavras por termos um tecido empresarial cooperativo, solidário e responsável. Mas essa não é a realidade. Há muita competição, foco nos resultados e pessoas mal formadas do ponto de vista humano. O pior é que os novos elementos aprendem com os maus exemplos e, das duas uma: ou se tornam pessoas infelizes e profissionais frustrados por não se identificarem com estas posturas, ou se juntam aos piores e continuam a propagar a perversidade.

Este texto não surge como um ataque às empresas ou aos profissionais. Pretendo apenas despertar consciências e partilhar a minha experiência/ perspetiva sobre o assunto. Mas, calma, sei que a moeda tem dois lados e eu conheço-os aos dois!

Há uns tempos conversava com uma amiga que é chefe de receção num hotel 4* e perguntava-lhe como classificaria a experiência que tem tido com estagiários e torceu o nariz. Disse-me: “Ui, as empresas nem imaginam o que vem aí. Estes miúdos de hoje em dia não querem trabalhar. Só porque estão a tirar um curso acham que vão sair dali e começar logo a gerir hotéis e sem nunca passar pelos outros departamentos! Preguiçosos, respondões e faltistas que só visto. E se lhes digo alguma coisa no outro dia desaparecem! Um drama!”

Estagiários de turismo!

Estão a ver onde se estão a posicionar com este tipo de atitudes?

Quem é que vai querer receber-vos como estagiários com esta imagem da mão de obra?

Percebam:

  • Tirar um curso não é garantia de coisa nenhuma. Para chegarem a algum lado vão ter que trabalhar muito e se o mercado vos permitir, porque o trabalho, às vezes, também escasseia!
  • Ter formação também não garante ligação direta a cargos de topo e, na realidade, para lá chegar será importante passarem por outras experiências.
  • Ser assíduo, pontual, responsável e diligente com a vossa função não é um favor que fazem à empresa que vos acolhe. Isso é o básico, o mínimo que têm que dar.
  • Há formas de demonstrarem a vossa opinião ou de discordarem de colegas ou superiores hierárquicos, só não o façam com arrogância e insolência porque não é elegante nem vos ajuda a conseguir o que querem, antes pelo contrário, a vossa imagem fica denegrida e dificilmente chegarão a bom porto.
  • Ainda estão a aprender, mas com certeza que têm muito para ensinar. Percebam o vosso valor e contribuam com ideias, opiniões e pontos de vista. Ficar na sombra cheio de vergonha ou insegurança só porque estão a começar não vos leva a lado nenhum, todos começaram por algum lado, por isso façam a vossa parte para se integrarem e serem úteis.
  • Afastem-se de intrigas, enredos e mexericos, muito menos se envolvam em disputas ou tomem partidos.
  • Fazer camas, descascar batatas, limpar o pó, varrer, ir aos correios ou tirar fotocópias não é nenhuma humilhação. São tarefas que fazem parte do trabalho desenvolvido nos locais onde estão a estagiar e alguém tem de o fazer. Desde que não façam só isso e durante todo o estágio, só têm a ganhar com a experiência. Agarrem-na e aprendam com ela.

Há coisas aqui das quais não estão dispostos a abdicar? Então não sigam o “caminho tradicional”. Ninguém vos obriga a tirar um curso ou a seguir uma determinada carreira. Façam as vossas escolhas. Lidem com as suas consequências. Viver em sociedade não é fácil, começam agora a perceber isso. Crescer também não, também já perceberam. Mas será menos complicado se encararem as dificuldades como desafios e levarem uma boa dose de perseverança e humildade. O resto vem. Aqui vão algumas dicas para tirarem o melhor proveito do vosso estágio:

Tracem um plano. Os planos valem o que valem, na maioria dos casos não correm como esperado, mas permitem-nos saber para onde vamos e onde estamos nesse percurso. “Para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve…”, já ouviram dizer? É um cliché, é verdade, mas é mesmo muito importante tê-lo em consideração ao longo do nosso caminho e serve para qualquer área da vida! Se já sabem onde querem estar daqui a uns meses ou uns anos, então já podem escolher o vosso local de estágio em consciência, tendo em consideração onde querem chegar e em quanto tempo.  

Investiguem sobre o local de estágio. Mesmo antes de começar o vosso estágio, pesquisem e tentem saber o máximo possível sobre a empresa, os produtos/ serviços, as pessoas, as políticas internas, a história e tudo quanto vos for possível, inclusivamente a opinião dos clientes. Plataformas como a booking ou a tripadvisor, por exemplo, devem mesmo ser consultadas. Esta medida vai dar-vos muita segurança nos primeiros tempos, porque, sempre que os colegas vos falarem de determinado assunto, não se vão sentir completamente a “navegar na maionese” e até podem interagir mais e melhor, demonstrando, assim, serem empenhados e detentores do conhecimento.    

Ninguém sabe tudo e vocês estão a aprender. O maior medo que os meus alunos partilham comigo é o de não saber fazer. É tão normal ter esse medo como não saber fazer algo. Por exemplo, antes de saberem andar já sabiam andar? Então, qual é a lógica? Temos que começar a fazer para aprender. Às vezes vamos cair e tropeçar, mas voltamos a tentar até conseguir. Não paralisem, tirem esse medo da cabeça! Na realidade, ninguém espera que cheguem lá e comecem simplesmente a trabalhar com um passe de mágica. Se ouvirem comentários depreciativos ou maliciosos acreditem, eles não passam disso mesmo. Respirem fundo, confiem em vocês próprios e deem o vosso melhor. Sempre que não souberem algo perguntem, estejam atentos e repliquem. Se, ainda assim, não compreenderam bem ou não conseguem fazer sozinhos, voltem a pedir ajuda, as vezes que forem necessárias. O estágio é também, em si, um processo de aprendizagem. Relaxem!

Façam sempre mais do que o esperado. Com isto não quero dizer que têm que trabalhar 16 horas todos os dias, mas estamos a falar da área do turismo. Se for necessário e disso depender a concretização de uma atividade de um cliente, então podem e devem disponibilizar-se, não sem antes perceberem como surgirá a compensação pelo vosso esforço, porque ela tem que existir. Se não existir, porque, sejamos realistas, na maioria das empresas não existe, fica ao vosso critério a decisão de ficar ou sair a horas. Além disso, não se limitem a fazer tudo “by the book”. Questionem, perguntem, percebam, argumentem, debatam, tenham espírito crítico e vão construindo a vossa própria linha de pensamento. 

Foquem-se no trabalho e na vossa aprendizagem, rumo à evolução que desejam. Afastem-se de pessoas, situações e contextos tóxicos que em nada vos acrescentam.

Sejam autónomos e proativos. Não estejam sempre à espera que os pais ou os professores resolvam os vossos problemas. Tomem a iniciativa de os solucionar através das vossas próprias ideias, nunca esquecendo que o diálogo e o respeito (por vós e pelo outro) devem estar sempre presentes.

Denunciem. Se detetarem verdadeiras explorações ou abusos, porque, não vos vou mentir, eles existem, então denunciem! Sem medos. Se nunca falarmos, as coisas nunca vão melhorar para nós ou para as próximas gerações. Se o medo persistir há formas anónimas de o fazer, ou peçam ajuda ao vosso orientador, ele vai ajudar-vos a perceber se se trata realmente de uma situação extrema e a lidar com ela, se essa for realmente a vossa vontade.

Os números não são o mais importante. Sei que num estágio há uma avaliação associada e, normalmente, é dessa forma que se mede o desempenho. É capaz de ser por esta nota que se vão esforçar, o que é legítimo, mas pensem que os conhecimentos que vão adquirir quer a nível técnico, quer a nível pessoal, são muito, mas muito superiores a qualquer número escrito num papel. Se derem o vosso melhor porque querem realmente investir em vocês, o retorno virá.

Não é a vossa formação que vos define, mas sim o que fazem com ela! Há muitas pessoas com canudos que não percebem nada de relações, profissionalismo ou procedimentos. Se tiram um curso, vão estagiar e esperam, com isso, ser os melhores profissionais do mundo e ter um emprego top, então desenganem-se porque não vai acontecer. É preciso mais e melhor. É sempre preciso mais e melhor! Pesquisem, investiguem, leiam, relacionem-se com pessoas, encontrem um mentor, continuem a estudar em diversas áreas do saber, façam voluntariado, partilhem ideias e experiências, errem, errem muito, aprendam com esses erros, reposicionem-se e busquem sempre chegar onde querem. Se precisarem, peçam ajuda, não há mal nenhum nisso.

Todas estas questões poderiam já estar bem definidas para os jovens se a nossa sociedade fosse mais realista e respeitasse mais as formas de estar individuais. Pais e educadores criam expetativas demasiado elevadas na cabeça dos mais novos, muitas vezes desfasadas da realidade e sem ter em consideração o que eles realmente querem e as suas personalidades. Pior, superprotegem e tratam-nos como se fossem uns mentecaptos que não conseguem resolver os seus próprios problemas ou tomar as suas próprias decisões, não percebendo que lhes estão a tirar o direito de escolha, a capacidade de pensar por eles próprios, a autoconfiança e a autonomia, até, de sobrevivência.   

Este texto não surge como um ataque a pais, educadores ou jovens. Apenas quero alertar para algumas situações que, por vezes, se tornam mais complexas do que seria necessário se todos percebessem qual o seu papel e os limites da sua intervenção neste processo de crescimento.

E qual o papel das escolas/ instituições nisto tudo? Mediar, intermediar, acompanhar, incentivar e agir sempre que necessário. Por vezes torna-se um verdadeiro jogo das cadeiras, mas, no fim, o balanço é sempre positivo. Tem de ser!

E você, o que acha deste tema?

Como correu o seu estágio?

Já trabalhou com estagiários? Como foi a experiência?

Conte-me tudo, vou gostar de saber!

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