Há hotéis que são autênticas cidades! Por entre corredores encontramos quartos, salas de estar, restaurantes, bares, lojas, salas de eventos, bibliotecas, spa, cabeleireiro, ginásio, enfim…cada vez a oferta é maior e mais diversificada, para agradar o mais exigente turista dos tempos atuais.

Para garantir que esta máquina funciona na perfeição e de forma coordenada, é preciso ter os melhores líderes a telecomandar as operações. Hoje dou-vos a conhecer uma dessas pessoas. Ele é o Fábio Rebelo, Diretor de F&B, Eventos e Salas do Hotel Holiday Inn Porto Gaia e natural de Santa Maria da Feira. A sua formação está assente na licenciatura em Turismo e Gestão de Empresas Turísticas, pela Universidade Lusófona do Porto, e o seu percurso profissional passou já por empresas como Tattva Design Hostel e Ibersol.

Fui saber um pouco mais sobre estas funções, este profissional e o seu percurso:

 

 

 

 

 

 

CR – O Turismo entrou na sua vida muito cedo. Como é que surge esta paixão?

FR – Iniciei o meu percurso académico na área das Humanidades, no Colégio Internato dos Carvalhos, onde teria, no 11º ano, que escolher entre Turismo, Direito ou Línguas. Inicialmente estava convicto de que o meu futuro passaria pelo Direito, contudo foi no 10º ano que acabei por abrir horizontes e começou aqui o meu interesse pela área do Turismo. Conclui então o curso de Património e Turismo e foi quando decidi entrar na licenciatura de Turismo e Gestão de Empresas Turísticas na Universidade Lusófona do Porto, onde fui aluno de mérito. Mais recentemente, tirei o curso de Gestão Comercial e Revenue Management em Restauração, pela CESAE Business & Tourism School. O meu percurso profissional começou por um restaurante oriundo de um negócio social, o Self – Lugar de Sabores, que me levou até à Ibersol, passei pelo “Tattva Design Hostel”, onde era Manager do restaurante e é quando, em 2016, entro no Holiday Inn Porto Gaia, na época, como Assistente de Direção de F&B. Assumi a Direção do departamento de F&B, que acumulei com Eventos e Salas, em Janeiro de 2019.

CR – Como e quando é que decidiu que se queria direcionar mais para a área das comidas e bebidas/ eventos?

FR – Por acaso esta é uma história um pouco “curiosa”. Durante o meu percurso académico eu sempre disse que o último departamento onde eu gostaria de trabalhar seria o de comidas e bebidas. Sempre pensei direcionar a minha carreira para a Gestão Cultural e Património ou, então, Agências de Viagens. Perto do final da licenciatura, eis que surge uma oportunidade de estágio onde o estagiário que se destacasse teria uma oportunidade de emprego. E este estágio era num restaurante, o Self – Lugar de Sabores. A minha coordenadora de curso considerou que eu seria o estagiário ideal para o projeto. Difícil foi convencer-me, pois eu não queria de forma nenhuma fazer o meu estágio em restauração. Em determinado momento cedi. E, a partir daqui, tudo foi uma aprendizagem. Quanto mais tempo de estágio decorria, maior era a paixão e o interesse. E acabei por “aqui ficar”. Acabei por querer mais, aprender mais e crescer nesta área.

CR – Qual a relevância do departamento de comidas e bebidas/ eventos dentro de um hotel? É possível encantar um cliente “pela boca”?

FR – Extremamente importante. Comidas e bebidas são uma necessidade básica do Homem, mas são mais do que isso. Esta é uma área que constitui, sem dúvida, uma oportunidade de criar experiências para o cliente. E essas experiências podem passar por provar algo típico, o sabor, o atendimento, as sensações que são recebidas pelo espaço, entre outros. Acredito que o departamento de comidas e bebidas acaba por ter uma influência muito grande na avaliação que os clientes fazem sobre o hotel, basta fazer uma procura rápida e aleatória por avaliações da Booking, por exemplo, e percebemos que o pequeno almoço é dos critérios mais referidos pelos clientes no momento em que estão a fazer a avaliação da unidade. A par disso, o objetivo de levar os nossos clientes a vivênciar experiências é que essas se venham a tornar em memórias, de forma a que procurem novamente os serviços do hotel, ou que recomendem – e rapidamente guardamos na nossa memória o “incrível serviço do restaurante” ou o “pequeno almoço memorável”.

CR – Como é o dia a dia de um Diretor de F&B, Eventos e Salas?

FR – O meu dia divide-se em dois grandes campos: operação e back office. No começo do dia chego ao hotel, vou direto às cozinhas, onde cumprimento a equipa e passo para a sala de pequenos almoços. Verifico, com o responsável de pequenos almoços, se todos os standards se encontram a ser cumpridos e se existe alguma passagem de serviço necessária a fazer. Nesta fase também é feita uma rápida revisão à agenda do dia e delegam-se as tarefas necessárias para a sua realização. Depois disto, vou até ao escritório, onde verifico rapidamente o email para então passar à reunião da manhã – reunião feita todas as manhãs, pelos responsáveis de departamento, no sentido de se verificar a agenda de eventos e grupos, as chegadas do dia e discutir qualquer assunto que seja relevante para a normal operação do hotel. Sendo também responsável pelo departamento de eventos, após a reunião, verifico as propostas enviadas no dia anterior, eventos fechados, follow ups que são necessários fazer e, juntamente com a equipa de eventos, são definidas estratégias concretas e necessárias no sentido de fechar negócios. Perto do almoço faço então uma ronda pelas cozinhas, cumprimento os colaboradores que entraram a meio da manhã e vou verificando, nos respetivos outlets, os registos de HACCP, o cumprimento de standards, a arrumação e limpeza de espaços, se as chegadas de stock do economato estão a ser devidamente acondicionadas e se está tudo preparado para darmos início ao período do almoço. Por norma, ao meio dia estou a almoçar. É o horário em que grande parte da minha equipa vai até ao refeitório e eu gosto de estar com eles neste momento. É um momento de descompressão do stress do dia a dia e que me permite conhecer um pouco mais de cada um, para além da “personalidade” profissional. Tenho este fascínio em conhecer a minha equipa. Saber quem são, de onde vêm, mas sobretudo para onde querem ir e de que forma os posso ajudar a lá chegar. Após o almoço poderei, dependendo do dia, estar a dar apoio à operação ou no escritório a tratar de questões de back office, de F&B e/ou Eventos. Durante a tarde, por norma, trato de questões mais burocráticas (como análises de resultados, contactos com fornecedores, entrevistas, estratégia comercial dos outlets de F&B e Eventos, plataformas de venda online dos outlets, reviews, etc.). A meio da tarde existe, também, um segundo briefing – no sentido de verificarmos o serviço do período de jantar e, mais uma vez, delegar as tarefas necessárias, mas agora para o turno da tarde/ noite. Por vezes as tardes também são destinadas a reuniões de direção. Aqui analisamos os resultados de cada departamento e são definidas estratégias conjuntas e transversais a todos os departamentos. No fundo, são os momentos onde avaliamos e reajustamos a estratégia global do hotel como um todo. Por fim, não são raras as vezes que é necessário ficar para acompanhar a operação de jantar. O mais divertido no dia a dia de um Diretor de F&B e Eventos é que nenhum dia é igual ao anterior. Frequentemente saio de casa a pensar na forma como vou estruturar o meu dia e, assim que chego ao hotel, percebo que afinal o que eu planeei não vai acontecer e rapidamente tenho que me readaptar.

CR – Quais os maiores desafios que enfrenta na sua função atual e como lida com eles?

FR – O maior desafio é, sem dúvida, gerir o capital humano do departamento. Assistimos a uma fase em que a oferta de trabalho para profissionais da área de comidas e bebidas é tão vasta que se torna muito complicado conseguir manter equipas estáveis e consistentes. Tem de ser realizado um trabalho árduo e diário para perceber se as Pessoas estão satisfeitas com o seu trabalho, de forma a conseguir manter um ambiente positivo. Daí para mim ser importante partilhar os momentos de almoço e/ ou jantar com a equipa, pois é nestas conversas informais que sou capaz de entender o que procuram, o que pretendem. As motivações podem ser várias: existem aqueles que são felizes com o posto que ocupam e procuram apenas o horário A ou B, existem aqueles cuja motivação é sentirem que trabalham com um ambiente positivo, onde os colegas assumem quase que uma posição de “família”, existem os que se querem sentir parte da organização, existem os ambiciosos que querem sempre mais e mais, entre muitas outras. Cabe-me a mim perceber qual a motivação de cada um para, num momento posterior, e em conjunto com a Diretora Geral do hotel, tentar encaminhá-los para as oportunidades de desenvolvimento profissional/ ou oportunidades organizacionais que venham a surgir. E este tem sido o trabalho que tenho vindo a fazer, tentando ao máximo manter a equipa feliz e motivada no seu todo, pois só com uma equipa sólida é possível assegurar a consistência do serviço – que acaba por ser o segundo grande desafio desta área, pois está totalmente dependente do capital humano.

CR – Na sua perspetiva a área da Hotelaria é um mundo de oportunidades?

FR – Sim, considero que a hotelaria é de facto um mundo de oportunidades. Mas desengane-se quem achar que são oportunidades fáceis. As oportunidades na área da hotelaria exigem o melhor de nós: esforço, dedicação, o ser inquieto na vontade de aprender. O setor da hospitalidade tem estado em constante evolução, o que nos leva a estar constantemente focados e atentos a tudo o que se passa ao nosso redor. Estudar tendências, perceber o que o mercado oferece e de que forma nos podemos diferenciar. E isto é transversal a qualquer área da hotelaria e até mesmo do turismo.

CR – Conte-nos um pouco como tem sido a sua experiência com estagiários e diga-nos que conselho daria aos mais novos de modo a otimizar os seus estágios em Hotelaria.

FR – Efetivamente lido com vários estagiários e confesso que várias vezes me sinto um pouco desiludo e até algo frustrado. Infelizmente, a área do turismo ainda é vista como o percurso mais simples para fazer o 12º ano, ou para nos podermos “gabar” de que temos uma licenciatura. E, muitas vezes, quando estes alunos chegam ao primeiro dia de estágio acabam por ter um choque doloroso. São vários os alunos que nos chegam a dizer “não quero isto para a minha vida, estou aqui para terminar o curso”. São vários os alunos que vêm de licenciaturas em gestão hoteleira que nem sabem o ABC da hotelaria, mas já se acham presidentes executivos de grandes grupos hoteleiros, recusando-se a fazer tarefa A ou B, porque não foi isso que estudaram. Felizmente, também aparecem estagiários, embora em minoria, que nos desafiam a ensinar e a mostrar-lhes o que a área da hotelaria tem de melhor. O conselho que posso dar é: quando começam um estágio, ou até mesmo quando começam um trabalho, lembrem-se de ser humildes e de querer saber mais, questionem, procurem, passem por diferentes departamentos – tornem-se o mais multidisciplinares possível. A mim dá-me muito gozo trabalhar com quem tem vontade de aprender porque tenho a certeza de que também irei aprender muito, além de que serão eles os meus colegas daqui a uns anos, pois as oportunidades estarão guardadas para estes!

CR – Tem um percurso profissional muito especializado. Nunca quis explorar outro ramo do Turismo?

FR – Como disse anteriormente, esta área foi sempre a última que procurei. Atualmente sinto-me feliz neste ramo, contudo, isso não me impede de querer mais e de saber mais. Sou um curioso por natureza e estou constantemente atento ao que se passa em departamentos que não o meu, de forma a reter novos conhecimentos. Uma área que me desperta muito interesse é Revenue Management, pois centra-se em números e estratégia e, embora já tenha feito algumas formações nesta área, será certamente uma matéria a explorar mais no futuro.

CR – Como encara os novos desenvolvimentos no âmbito da Inteligência Artificial adaptada à Hotelaria? Por exemplo, já é possível que o turista faça, de forma autónoma, através de máquinas, check-ins e check-outs

FR – Honestamente é uma questão à qual não sei muito bem responder. Podemos ter um hotel, quartos, um restaurante, entre outros. Mas eu não consigo imaginar a área da hotelaria e hospitalidade sem Pessoas. São as pessoas que fazem desta área aquilo que é e não acredito que máquina nenhuma o vá substituir, poderá sim vir a complementar. Existem, de facto, desenvolvimentos que já se começam a ver e que acredito que nos próximos 10/ 20 anos serão uma realidade das nossas vidas, porém quero acreditar que as pessoas continuarão a ser o aspeto chave no setor da hospitalidade.

 

Muito obrigada, Fábio, pela sua colaboração nesta entrevista e pela dedicação diária à sua profissão. É espantoso!

 

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“Os Incógnitos do Turismo de Portugal” é uma rubrica que surge da vontade de dar a conhecer as funções que se podem assumir nesta área tão vasta que é o Turismo. Por outro lado, e mais importante, homenagear alguns dos melhores profissionais de sempre. Trabalham para que os outros possam construir memórias de felicidade e sentem-se gratos pelo que acrescentam à vida do outro.

Quem são eles? O que fazem?

Aqui, dou a conhecer alguns destes respeitosos profissionais!

Espero que vos possa acrescentar e inspirar!

*** Rubrica quinzenal com publicação à terça-feira. ***

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Se é um profissional de Turismo e gostaria de ser entrevistado no âmbito da rubrica “Os Incógnitos do Turismo de Portugal” entre em contacto comigo, vou gostar de o conhecer!

turismo@catiarodrigues.pt

www.catiarodrigues.pt

 

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