Os bares são um dos locais de eleição para nos divertirmos em qualquer momento e, em viagem, não são exceção. Mas, hoje em dia, não basta pedirmos uma simples bebida servida num copo. O cliente quer mais, quer melhor. Procura criatividade, divertimento, inovação. Por isso tudo e muito mais, a profissão de bartender tem evoluindo muito nos últimos anos, procurando-se as melhores técnicas, as estratégias mais arrojadas e os melhores profissionais.

Hoje dou-vos a conhecer uma dessas pessoas. Ela é a Jéssica Fonte, uma mulher forte e determinada, apaixonada pelas relações humanas e pela arte de bem servir.

Fui saber um pouco mais sobre estas funções, esta profissional e o seu percurso:

CR – Começaste o teu percurso estudando Turismo. Abandonaste, mas o “bichinho” ficou. O que te atrai nesta indústria?

JF – Desde pequena que brincava aos cafés e falava com os meus clientes imaginários sobre locais e viagens. Com o passar dos anos a curiosidade ficou em mim e, aos 14 anos, tive a oportunidade de trabalhar em restauração (queria começar a juntar o meu dinheirinho). Mantive-me nessa área e, de facto, até desisti dos estudos (na altura estava a tirar o Curso Profissional de Turismo) para poder trabalhar mais e aprender mais. Com o crescimento do Turismo no nosso país e já com mais experiência prática, senti necessidade de voltar a estudar. E assim fiz. Aos 22 anos, tirei o curso de Técnico de Restaurante e Bar e, mais tarde, fui tirando outras formações mais especializadas em trabalho de Bar.

CR – Então, qual a importância que atribuis à formação na tua área de trabalho e qual a tua postura face a esta questão no presente e para o teu futuro?

JF – A formação abriu-me mais portas, fez-me conhecer pessoas extraordinárias, com quem aprendi muito e que ainda hoje são meus mentores, deu-me as melhores ferramentas para encarar os desafios que nos vão aparecendo e deu-me a técnica necessária para desempenhar as minhas funções com o máximo de excelência e profissionalismo. Hoje reconheço a importância e a necessidade da formação e, com certeza, que não ficarei por aqui.

CR – O que é, exatamente, um bartender?

JF – Criamos todo o tipo de bebidas, desde cocktails sem álcool (os chamados mocktails) a cocktails, cuidamos de todos os setores do bar (inventários, fichas técnicas, criamos as ementas das bebidas, entre outras tarefas). É preciso ter muito jogo de cintura ao lidar com o cliente, ser comprometido com a profissão, ter a humildade de aprender algo novo todos os dias e ser empenhado. O bartender é uma pessoa dinâmica e simpática. Tem de ser, acima de tudo, um amigo do seu cliente, não estamos ali só para o servir, mas sim para entretê-lo com o nosso jogo de bebidas. É preciso sorrir, divertir e atrair o cliente para o conhecido “não se vá embora, beba mais um copo”.

CR – Hoje em dia já é muito comum ver mulheres a desempenhar esta função, mas originalmente era um mundo de homens. Sentes algum tipo de descriminação no meio?

JF – Até hoje não senti muito isso. Na verdade, sou uma pessoa de personalidade forte e muito teimosa, por isso quando quero muito uma coisa luto por ela e consigo-a. Como sempre quis ser bartender, lutei muito para chegar onde cheguei e, por incrível que pareça, fui mais ajudada por homens do que por mulheres (não querendo aqui gerar uma onda de discriminação, claro!). Quando sentia que me subestimavam: “isto não é para ti, não consegues, és uma menina”, eu respondia: “deixe-me mostrar primeiro, depois tira as suas conclusões!” Funciona quando sabemos o nosso valor e o nosso profissionalismo!

CR – Quais as grandes vantagens e desvantagens da tua profissão?

JF – Vantagens: conhecer pessoas novas, aprender, viajar, ganha-se bem e, acima de tudo, divertimo-nos imenso. Desvantagens: muitas horas de trabalho, muitos dias fora de casa, cansativo física e emocionalmente. Mas as vantagens superam as desvantagens, claramente! Valem muito a pena os sacrifícios que fazemos quando somos apaixonados pelo nosso trabalho.

CR – Há algum truque para lidar com clientes “mais difíceis”? Como geres essa parte mais complexa do teu trabalho?

JF – O truque, como eu digo sempre, é sorrir e ser simpática. Por vezes aparecem clientes que só estão chateados com algo no trabalho ou em casa e, por vezes, só querem um pouco de atenção. Se dermos a nossa plena atenção e simpatia, eles acabam por se tornar menos desagradáveis. Quando, por vezes, são mesmo rudes, aí coloco a minha imaginação em ação e penso em coisas de que gosto e, assim, abstraio-me um pouco de toda aquela tensão, que acaba por se desvanecer mais cedo ou mais tarde.

CR – Aconselharias esta profissão a outras pessoas?

JF – Claro que sim! É uma profissão muito cansativa, sim é… mas é tão satisfatória! Todos os dias temos oportunidades de aprender, trabalhar e nos divertirmos. O que podemos pedir mais?

CR – Qual a importância das línguas estrangeiras no desempenho das tuas funções?

JF – É extremamente importante saber línguas, pois lidamos com todo o tipo de nacionalidades. Felizmente Portugal é um país que trabalha muito com turistas e, como ninguém aprende línguas em três dias, não podemos exigir que os nossos visitantes falem português. Temos que ser nós a estar preparados para acolher nas línguas estrangeiras. O inglês é fundamental e outras, tantas quanto possível, são uma mais-valia. Viajar pelo mundo para conhecer as culturas e ter temas de conversa com os estrangeiros também é importante. Além disso, é sempre uma oportunidade que deve ser aproveitada para tirar ideias para novas receitas!

CR – Fala-nos um pouco sobre a tua perspectiva acerca do trabalho de equipa em Turismo e, em especial, no desempenho das tuas funções.

JF – Sempre gostei de fazer tudo sozinha e sem a ajuda de ninguém, o que me trouxe imensos problemas, mas na altura não conseguia ver. Foi a formação que me abriu os olhos para a importância do trabalho de equipa. Aprendi que dividindo as tarefas, delegando, pedindo ajuda, opiniões e apoio, o ambiente de trabalho é mais animado, não há tanto stress e conseguimos ser mais produtivos, eficientes e criativos. Hoje não sei trabalhar de outra maneira e alerto que quem quer trabalhar nestas áreas, tem que vir com uma mente aberta e um espírito de entreajuda, caso contrário mais vale repensar as suas escolhas.

CR – Conta-nos uma história caricata que tenha acontecido no âmbito do teu trabalho e que queiras partilhar connosco.

JF – Já tive imensas, mas uma delas foi na inauguração de uma discoteca. Os clientes já                estavam “animados” e, por volta das 4h, um senhor encostou-se ao balcão, já meio                ´zonzo´, e eu questionei se estaria tudo bem e se queria algo. Como é óbvio ele pediu                 mais um copo e, como eu percebi que ele já não estava mesmo bem, dei-lhe um copo                   de água e disse-lhe para beber devagarinho. Ficou a promessa de depois lhe dar algo com álcool. O mais engraçado foi que ele pediu outro copo daqueles, dizendo que a bebida estava fantástica e queria saber o que era, pois estava na dúvida se seria vodka ou rum! -.- 

Muito obrigada, Jéssica, pela tua colaboração nesta entrevista e pela dedicação diária à tua profissão. És radiante!

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