O Campismo sempre foi encarado como uma área de nicho, pois não são todas as pessoas que se identificam com as condições reduzidas de higiene e conforto que proporciona. Assim, a estratégia dos últimos anos tem passado por melhorar condições e apostar na mudança de posicionamento para uma ideia de maior contacto com a natureza e com as origens, com a importância das relações que se criam e com a possibilidade de fazer algo mais genuíno, leve e descontraído. Por outro lado, surgiram outras subáreas de negócio como o glamping, que vieram apresentar possibilidades diferentes e mais sofisticadas. 

Para lidar com todas estas questões, existem profissionais que se dedicam diariamente à análise da satisfação das necessidades do seu público, quer em teoria, quer na prática. Hoje dou-vos a conhecer uma dessas pessoas. Ele é o João Cupido, Técnico Superior de Turismo e Coordenador do Parque de Campismo de Mira.

Fui saber um pouco mais sobre estas funções, este profissional e o seu percurso:

CR – Como é que tu e o Turismo se encontraram?

JC – A “queda” para o Turismo não foi consensual. No secundário tinha apenas uma certeza: continuar os estudos nas áreas sociais, pois o contacto com pessoas, o público, era o que mais me atraía. Vi o turismo como uma área interessante, pela qual podia seguir e assim fazer algo que me satisfizesse. Assim se iniciou a jornada.

CR – Como caracterizas o mercado do Campismo em Portugal?

JC – As condições de vida dos portugueses têm melhorado nestas últimas décadas e o papel do campismo tem vindo a perder terreno para outro tipo de alojamento, como é o caso dos alojamentos locais. Daí a necessidade do Campismo se ter de reinventar com o aparecimento de outras opções como o glamping. O público que frequenta maioritariamente o campismo, neste momento, é um público mais sénior que sempre fez campismo e hoje, com maior disponibilidade de tempo e dinheiro, aproveita para desfrutar. Nos últimos anos, o público mais jovem já não vem tanto para o campismo, pois opta pelos festivais de verão com campismo incluído, é um 2 em 1. Desfrutam do campismo e vêem os espetáculos. Contudo, há que referir que o sucesso do turismo em Portugal também se deve, em grande parte, ao campismo, dado que são inúmeros os caravanistas estrangeiros que nos visitam. Portugal está na moda e o caravanismo é uma forma de conhecer melhor o país de norte a sul.

CR – O que faz, exatamente, um Coordenador de um Parque de Campismo?

JC – Iniciei a minha carreira no município como técnico de turismo e, em abril de 2017, foi-me proposto pelo executivo municipal que coordenasse o parque municipal de campismo. No início, obviamente, não é fácil, pois passas de ser um “simples” técnico a coordenador, líder de 11 pessoas (todas mais velhas), sendo que no verão esse número de staff chega aos 30, com hábitos antigos enraizados, formas de pensar e agir completamente diferentes. É difícil aplicar mudanças, mas primeiro é preciso fazer um reconhecimento geral do trabalho, humildemente ver o que se faz e como se faz para aprender e, a partir daí, corrigir o que está mal e tentar aplicar os nossos conhecimentos técnicos.

Coordenar um Parque de Campismo é como coordenar uma pequena empresa. Temos várias equipas a trabalhar em áreas distintas: recepção, portaria, manutenção, limpeza e vigilância e há sempre algo a acontecer, especialmente no pico da época alta. Começo o dia por ver as ocorrências noturnas, se houve algo fora do normal, falando com os colegas, logo de seguida transmito algumas orientações para o pessoal da manutenção, portaria e limpeza e faço a gestão das reservas de bungalows. Há, ainda, a parte contabilística para ser preparada e entregue à contabilidade. Se tudo isto correr bem e não surgir nenhuma “urgência”, ainda vou a tempo de fazer um follow up dos utentes e verificar in loco alguma situação anómala. Em épocas mais calmas, a chamada época baixa, por vezes é necessário dar uma ajuda extra aos colegas, participando nas tarefas de limpeza e manutenção, a parte mais operacional do parque, que assumo sem preconceitos, porque acho que é importante demonstrar que estamos todos juntos no dia-a-dia. Independentemente da minha função, somos uma equipa, não recuso ajudar nas tarefas operacionais, quando a disponibilidade o permite. Além destas funções, continuo a ser o Técnico de Turismo do Município, participando em diversas feiras nacionais e internacionais levando o nome de Mira mais além.

CR – Embora as mentalidades tenham vindo a mudar um pouco ao longo dos últimos anos, especialmente com o conceito de Glamping, há ainda algum preconceito em relação ao Campismo. Sentes isso no dia-a-dia, do ponto de vista operacional? Como contornam esta questão?

JC – Sim, noto isso com o público que recebemos, no entanto, julgo que o preconceito tem vindo a dissipar-se, pois cada vez mais as pessoas buscam por autenticidade, contacto com a natureza no seu estado mais puro, as caminhadas ao ar livre, a fuga ao stress, à confusão e o campismo oferece isso tudo e muito mais.

Os espaços também têm que ter a capacidade de se reinventar e adaptar-se aos novos contextos. Por exemplo, desde 2012 que o nosso parque inclui bungalows com inspiração nos palheiros dos pescadores da nossa costa, que encontravam o seu expoente máximo aqui na Praia de Mira, anteriormente apelidada de Palheiros de Mira, pois podiam atingir dois ou mesmo três andares. Estes bungalows têm sido promovidos como a imagem de marca de Mira, bungalows palafíticos, assentes em estacaria em cima de um lago, apenas com a duna a separar a vista para o mar. Têm tido uma enorme procura, cada vez mais como uma alternativa ao quarto de hotel, pois estão equipados com uma cozinha, sala e WC independentes, pela sua proximidade à praia e a envolvente natural e pura do próprio parque.

CR – Quais os grandes desafios da tua profissão atual e como lidas com eles?

JC – O grande desafio da minha profissão atual ou de qualquer outra profissão é, na minha opinião, a parte prática que não é lecionada nas escolas, sejam elas secundárias, profissionais e/ou superiores. Julgo que há a necessidade de haver mais estágios, mais relação trabalho/ escola, para que os alunos possam sair para o mercado de trabalho já com algumas ideias do que poderão vir a enfrentar. A falta de formação de profissionais é também uma limitação com que me deparo todos os anos, pois o campismo é um setor que sofre muito com a sazonalidade: temos picos enormes no verão e épocas festivas e no resto do ano a ocupação é relativamente baixa. Daí não haver muitos profissionais de turismo a interessarem-se pelo campismo, pois a oferta de trabalho é muita em épocas altas, mas baixa ou mesmo inexistente nas épocas baixas.

CR – O que mais te apaixona no teu trabalho atual e porquê?

JC – O que mais me apaixona no meu atual trabalho é o facto de poder servir o próximo, criando memórias, fazendo redescobrir as sensações de bem-estar e desfrutar do ar puro da natureza. 

Quando as pessoas nos procuram vêm à procura de paz, tranquilidade e bem-estar. Creio que essa deva ser a nossa missão: receber as pessoas de braços abertos e tudo fazer o que está ao nosso alcance para lhes proporcionar uma boa estadia nas nossas instalações. 

Ao longo dos anos vou-me apercebendo que temos clientes que vêm para o parque há muitos e muitos anos repetidamente, passaram as férias de verão cá com os filhos e hoje em dia já vêm com os netos que estão quase na adolescência, tal é a paixão que têm pelo parque e pela localidade, pois criaram recordações, boas sensações. Creio que são estes os testemunhos que nos dão força e alento para trabalhar de modo a melhorar as condições e as instalações, proporcionando-lhes a melhor experiência possível.

Gratidão é a palavra que me surge à cabeça, talvez por estarmos a passar por esta quadra natalícia, mas resume a paixão pelo meu trabalho atual. Sentirmo-nos bem connosco próprios quando estamos a servir alguém!

CR – Que outros projetos tens para o futuro ao nível profissional?  

JC – Todos nós devemos ter projetos para o futuro ao nível profissional, a médio, longo prazo, pois é importante não pararmos, não nos acomodarmos, termos objetivos, sermos empreendedores. Daí que tenha um projeto que está neste momento em ebulição, na área do lazer, sobre o qual não posso ainda revelar grandes pormenores, mas está a ser criado em Mira, na terra que me viu nascer, crescer e onde tenho a felicidade de viver e trabalhar.

CR – Muito se fala (e cada vez mais) na formação necessária para se trabalhar na indústria do Turismo. Qual a tua visão sobre este tema?

JC – Quando frequentava o primeiro ano de faculdade em Turismo, percebi que muitos dos colegas vinham de cursos profissionais relacionados com hotelaria, turismo, já com algumas “luzes” da abrangência do curso; como eu vinha de um curso generalista, Humanidades, tinha pouca noção das saídas profissionais. Então, decidi que todos os anos, nas férias de verão, faria um estágio extra-curricular para conhecer melhor as várias vertentes do turismo. E assim foi, no primeiro ano pedi estágio num hotel, passei pelas vários setores, no segundo ano estagiei numa agência de viagens e no terceiro num posto de turismo municipal, onde viria a ficar anos mais tarde.

De todos, sou sincero, não gostava de nenhum, não me satisfaziam… e assim que acabei o curso, tirei um curso de assistente de bordo, fascinava-me o mundo da aviação e tudo o que envolvia. Concorri a algumas vagas, mas sem sucesso. Foi, neste entretanto, que surgiu uma oportunidade de fazer um estágio profissional na Câmara Municipal de Mira, mais propriamente no Posto de Turismo e Museu Etnográfico, por onde tinha passado anteriormente. Como recém-formado agarrei logo a oportunidade com unhas e dentes. Aí a experiência foi completamente diferente, pois a colega que estava rescindiu o cargo e tive de assumir, com maior seriedade e empenho, a organização do Posto de Turismo e Museu Etnográfico, por onde passavam milhares de pessoas por ano, bem como a organização de vários eventos que decorriam no Museu e também no município.

Em suma, a formação escolar prepara-nos de uma forma bastante abrangente que depois é preciso trabalhar no terreno, de forma a ajustarmo-nos ao tipo de trabalho que nos aparece e/ ou que queremos para nós.

CR – Que conselho darias aos mais novos que estão a pensar enveredar pela área do Turismo?

JC – Poderia dizer-lhes que quem quer trabalhar em turismo tem de saber que esta indústria pede muito de nós. Temos que estar especialmente aptos e recetivos à mudança constante. O mundo global gira muito rápido e temos de ter a perspicácia e a sabedoria de nos adaptar a todo o momento.

CR – Conta-nos uma história caricata que tenha acontecido no âmbito do teu trabalho e que queiras partilhar connosco.

JC – História caricatas vão surgindo todos os anos, mas vou contar uma inspirada na questão anterior: certo dia veio uma estagiária apresentar-se para realizar o estágio curricular dela em Julho e Agosto. Vinha acompanhada pela mãe. Expliquei-lhe tudo o que iria fazer, quais os trabalhos a desenvolver, eventos, etc. e acabei a conversa a dizer-lhe que nestes meses de estágio teria de fazer algum sacrifício, pois ia trabalhar um ou outro fim-de-semana e algumas noites muito pontualmente. Qual não é o meu espanto, quando, logo de seguida, dou com a menina num pranto a chorar, pois não ia conseguir ver o namorado aos fins-de-semana nessas férias… É o espírito de sacrifício que o turismo pede, entre outros. A parte mais difícil são mesmo os horários não compatíveis com os restantes familiares, mas é algo com que temos de saber viver e adaptarmo-nos.

Muito obrigada, João, pela tua colaboração nesta entrevista e pela dedicação diária à tua profissão. És apaixonante!

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Se é um profissional de Turismo e gostaria de ser entrevistado no âmbito da rubrica “Os Incógnitos do Turismo de Portugal” entre em contacto comigo, vou gostar de o conhecer!

********************************************************************** Sobre este tema, poderá gostar de ler “Acampar é um prazer?”

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