Um dos grandes problemas no setor do Turismo é (ainda) a falta de mão de obra qualificada. Por outro lado, a escassa valorização de quem é qualificado, por parte do mercado de trabalho, também não é incentivo a uma maior aposta na formação dos profissionais.

Ainda assim, os cursos técnico-profissionais de Turismo têm vindo a “brotar que nem cogumelos” em Portugal, de há uns anos a esta parte, consequência do crescimento que se tem feito sentir no setor e de todo o buzz à sua volta.  

É de reconhecer a evolução dos últimos anos, mas muito ainda há a fazer para tornar esta área absolutamente qualificada e de excelência. Até aqui, têm sido os melhores profissionais do Turismo, que se habilitaram como Formadores Profissionais, que têm vindo a desempenhar esta linda missão de passar conhecimento técnico e humano.

Hoje dou-vos a conhecer uma dessas pessoas. Ela é a Liliana Duarte, tirou um curso profissional de Técnico de Turismo, na Escola Profissional Beira Aguieira, em Penacova, e seguiu os seus estudos com uma licenciatura em Turismo e Lazer, na Escola Superior de Turismo e Hotelaria de Seia, tendo avançado com o mestrado em Lazer, Património e Desenvolvimento, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. É Formadora Profissional de Turismo desde 2006.

Fui saber um pouco mais sobre esta função, esta profissional e o seu percurso:

CR – Como é que o Turismo entrou na tua vida? Conta-nos um pouco sobre o teu percurso desde a escolha do curso até aos dias de hoje.

LD -Como digo habitualmente, o turismo “sempre esteve na minha vida”. A minha família era muito ligada à área do turismo e da hotelaria, para além do gosto que os meus pais sempre tiveram em passear (acho que herdei isso deles!). Contudo, esta ligação tornou-se mais séria quando, com 15 anos, decidi tirar um curso profissional. Aqui as experiências de estágios foram muito enriquecedoras e fizeram-me querer continuar. Comecei a trabalhar num hotel e foi aí que percebi o quão fantástico, doloroso e viciante é trabalhar em hotelaria. Entretanto, ingressei no ensino superior e, no decorrer do estágio da licenciatura, realizado na antiga Junta de Turismo de Luso-Buçaco, tive a minha primeira proposta para dar formação. Em paralelo, passei por empresas de animação turística, iniciei o projeto na área do turismo da Fundação Mata do Buçaco e trabalhei em mais três hotéis. Entretanto, ingressei no mestrado. Em Janeiro de 2016 decidi dedicar-me, quase exclusivamente, à formação. Esta decisão foi tomada porque estava prestes a ser mãe e há momentos na vida em que temos que fazer opções. Qualquer mulher que trabalhe, ou já tenha trabalhado, em hotelaria deve entender o que digo. Desde então, tenho trabalhado com várias escolas e entidades formadoras.

CR – De todas as funções que já assumiste no mundo do Turismo, qual a que mais te preencheu enquanto profissional e porquê?

LD -Considero-me uma apaixonada pelo turismo, logo, é muito difícil responder a esta questão. No entanto, destaco três áreas:

  1. A Organização de Eventos, pelo contacto com clientes e fornecedores, pela logística e operacionalização e, a maior parte das vezes, pela ótima sensação de realização dos sonhos dos clientes;
  2. A Hotelaria, pelo contacto direto com o cliente, pela arte de bem receber, pela adrenalina diária da superação da expetativa do cliente e porque cada dia é sempre um dia diferente;
  3. A Formação, porque é extremamente desafiante. Primeiro, trabalhamos com públicos muito diferentes, o que faz com que tudo seja muito personalizado e depois porque é-nos dada a oportunidade de partilhar os nossos conhecimentos e as nossas experiências, o que permite, também, que estejamos sempre em constante aprendizagem.

CR – Como caracterizas a Formação Profissional do Turismo em Portugal?

LD -A formação em Portugal tem passado por altos e baixos e na área do turismo não é exceção. Atualmente existe muita oferta formativa na área e é fulcral entender as diferenças existentes, de modo a fazer-se a melhor escolha. O turismo em Portugal tem registado records de crescimento e torna-se urgente dar resposta a esta procura através de recursos humanos qualificados e de excelência.

CR – Consideras que a tua experiência prática te torna uma melhor formadora ou uma coisa não tem nada a ver com a outra?

LD -Claro que sim! Sem dúvida! Já na época em que era estudante tentei sempre trabalhar na área ao mesmo tempo, pois achava que teria a ganhar imenso com essas experiências. Acredito que as minhas aulas não seriam as mesmas se não tivesse tanto para contar aos meus formandos. Aliás, é notório o aumento de interesse deles quando abordo as questões mais práticas e dou exemplos concretos do dia a dia de trabalho.

CR – Quais os maiores desafios que enfrentas na tua profissão atual?

LD -O rápido desenvolvimento da sociedade, associado ao desenvolvimento tecnológico. No campo da aprendizagem, nomeadamente na área da tecnologia, sinto que temos que estar constantemente atualizados. Na parte pedagógica temos que adaptar as metodologias de acordo com a geração com a qual trabalhamos e adaptada, também, aos novos métodos de ensino. A questão afetiva também é extremamente importante, principalmente quando falamos das camadas mais jovens, em que muitas vezes deixo de ser a formadora para assumir o papel de mãe, tia, prima, irmã, … Nestes 13 anos em que dou formação, noto uma diferença muito grande com o passar do tempo, devido a todo este desenvolvimento social.

CR – O que mais te apaixona na Formação Profissional?

LD -Como já referi anteriormente, é extremamente desafiante. O facto de conseguirmos transmitir os nossos conhecimentos a pessoas tão diferentes e incutir-lhes a paixão pelo turismo é algo extraordinário.

CR – Sabemos que a área do Turismo tem (ainda) muitas fragilidades, mas, se pudesses escolher só uma, qual a que nomearias como o grande problema a resolver e que solução apresentarias?

LD -Recursos Humanos. Apesar de já termos percorrido um longo caminho neste sentido, creio que ainda há muito para fazer. Enquanto os empresários e gestores não perceberem que esta é a chave do sucesso, enquanto não selecionarem os colaboradores, enquanto não os valorizarem e enquanto não lhes derem as devidas condições, nunca iremos resolver a precariedade e a escassez. Existem excelentes profissionais no turismo, mas também há um número elevado de pessoas que pensam que qualquer pessoa é capaz de trabalhar nesta área e isso é uma ideia completamente errada. O turismo é uma área muito exigente a vários níveis e não é, de todo, para qualquer pessoa.

CR – Que outros projetos tens para o futuro ao nível profissional?

LD -Não sei se lhes posso chamar de projetos, mas tenho algumas ideias a amadurecerem na gaveta para implementar a médio-longo prazo. A curto prazo a minha aposta é mesmo na formação profissional.

CR – Conta-nos uma história caricata que tenha acontecido no âmbito do teu trabalho e que queiras partilhar connosco.

LD -Tenho muitas histórias e é difícil escolher. Contudo, gostava de partilhar uma curiosidade: por vezes, sou formadora da mesma pessoa em duas ou três escolas diferentes, acabando por acompanhar o seu percurso formativo ao longo de vários anos; ou, então, chego a ter famílias inteiras como formandos – já fui formadora do filho, da mãe, da irmã e até de casais ao mesmo tempo! Também tive uma situação em que um casal se conheceu durante uma formação, namoraram e, numa ação de Organização de Eventos, planeámos o casamento deles. Nesta área conhecemos muita gente e vamos sempre mantendo o contacto. É uma rede!

CR – Além de seres uma profissional do Turismo, também és uma apaixonada por viagens. Qual das duas facetas sobressai mais na tua personalidade e porquê?

LD -Sim, é verdade! Considero que as duas estão interligadas. O facto de lidar com o turismo diariamente faz com que desperte, ainda mais, a necessidade de viajar. Quando viajo, tenho a tendência em ter alguns cuidados associados à viagem em si e preocupo-me em trazer sempre algo para as minhas formações. Gosto muito de viajar e, apesar de conhecer alguns países, continuo a achar que Portugal está no topo da minha lista e faço questão de conhecer bem o nosso país.

Muito obrigada, Liliana, pela tua colaboração nesta entrevista e pela dedicação diária à tua profissão. És grande!

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Se é um profissional de Turismo e gostaria de ser entrevistado no âmbito da rubrica “Os Incógnitos do Turismo de Portugal” entre em contacto comigo, vou gostar de o conhecer!

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