O Turismo é uma área que inova a todo o momento e se baseia em inúmeros recursos para encantar as pessoas. O vinho é um deles e o Enoturismo é a grade tendência para 2020. Embora não seja propriamente uma novidade, dá agora grandes passos para se tornar, cada vez mais, uma tendência.

Assim sendo, é preciso que existam profissionais qualificados para proporcionar as melhores experiências aos clientes mais exigentes do mercado. Hoje dou-vos a conhecer uma dessas pessoas. Ela é a Liliana Pereira, uma apaixonada por turismo e vinhos, que resolveu mudar de carreira há cerca de 8 anos.

Fui saber um pouco mais sobre estas funções, esta profissional e o seu percurso:

CR – Como é que o vinho e a vinha entraram na sua vida? Conte-nos um pouco do seu percurso formativo/ profissional até aos dias de hoje.

LP – A minha vida profissional começou pelas ciências da nutrição, área em que me licenciei em 2006. No entanto, alguns anos depois, percebi que não era isso que me fazia feliz e abandonei os consultórios para me dedicar à hotelaria e ao turismo. Comecei por trabalhar em restauração coletiva e hotelaria. Entretanto, frequentei o curso de especialização em Gestão Hoteleira – Restauração & Bebidas, na Escola de Hotelaria e Turismo do Porto e uma pós-graduação em Gestão de Hotelaria e Turismo, na Porto Business School. Em 2015, abracei o desafio de desenvolver de raiz um projeto de Enoturismo. Esta oportunidade fez-me descobrir uma área do turismo que desconhecia e pela qual me apaixonei – turismo e vinho. Poderá haver melhor combinação? Para aprender mais sobre Enoturismo e sobre vinhos, em 2017, realizei o Short Master em Cultura do Vinho e Enoturismo e o curso de nível 2 em Vinhos e Destilados da escola Wine & Spirit Education Trust. Os últimos anos têm sido assim dedicados à área do Enoturismo, primeiro na Quinta de Santa Cristina, em Celorico de Basto, depois na Ribafreixo Wines (já no Alentejo) e agora na Adega José de Sousa, em Reguengos de Monsaraz.

CR – A Liliana não é Enóloga, mas sim Responsável de Enoturismo. Exatamente em que é que diferem estas funções?

LP – São duas funções completamente diferentes. O enólogo é responsável por toda a parte de produção do vinho, que começa desde logo na vinha e vai até aos processos em adega, estágios e elaboração de lotes (mistura de várias castas – tipos de uva – que vão constituir o vinho final). O responsável de Enoturismo está ligado essencialmente à receção de visitantes numa adega, acompanhamento de visitas guiadas e provas de vinho, realização de eventos relacionados com a vinha e o vinho. Portanto, a enologia está ligada diretamente à produção dos vinhos e o Enoturismo. Normalmente integrado no departamento de marketing, é uma ferramenta essencial de comunicação e divulgação dos vinhos produzidos e captação e fidelização de clientes (além de constituir uma fonte de receita cada vez com maior importância no volume de negócios das empresas).

CR – Como é um dia a dia seu de trabalho?

LP – As funções de um responsável de Enoturismo podem incluir atividades muito diferentes, desde a área de gestão até à operação, tais como:

  • Prospeção e estabelecimento de parcerias com hotéis, restaurantes, agências de viagens, empresas de animação turística;
  • Desenvolvimento e acompanhamento de programas e eventos temáticos realizados na adega;
  • Gestão de recursos humanos e controle de caixa;
  • Gestão de loja de vinhos e produtos regionais: pesquisa/ contacto com fornecedores, pesquisa de novos produtos, inventários, encomendas, etc.;
  • Elaboração de propostas/ orçamentos e programas ou experiências à medida, de forma a corresponder a todas as solicitações e necessidades de clientes individuais e grupos;
  • Gestão de reservas (e-mail ou telefone) e/ou em portais online;
  • Receção de visitantes, coordenação e realização de visitas guiadas à adega, provas de vinhos e outras experiências com clientes nacionais e internacionais, venda de vinhos e produtos regionais na loja.

Não se realizam todas estas tarefas todos os dias! Uns dias são mais dedicados ao backoffice e à organização, outros mais dedicados ao frontoffice e ao contacto direto com os clientes.

CR – A sua formação de base foi importante para desempenhar as suas funções atuais, mas é sempre preciso aprofundar um pouco mais os conhecimentos. Sente que o investimento em formação contínua é, de facto, importante? Em que medida?

LP – Para mim a formação contínua é essencial. Como percebeu pelo meu percurso, a formação tem sido uma constante, porque para se ser um bom profissional é muito importante que se perceba o que se faz e do que se fala, e estar constantemente a aprender. A atualização de conhecimentos é particularmente importante no caso do Enoturismo, porque contactamos diariamente com clientes de todas as partes do mundo e alguns que são profundos conhecedores de vinhos.

CR – Nunca pensou em especializar-se em enologia e desempenhar apenas a função de enóloga? 

LP – Essa é uma questão curiosa! Nunca pensei trabalhar como enóloga, mas na realidade já pensei em tirar a licenciatura em enologia, apenas para aprofundar os conhecimentos sobre vinhos e a sua produção e, consequentemente, realizar visitas e provas mais especiais, continuando sempre a trabalhar em Enoturismo.

CR – De acordo com a sua experiência, normalmente o que mais encanta um cliente nas visitas às vinhas/ adegas?

LP – Depende dos clientes. Se falarmos de clientes de países que não têm qualquer cultura de vinho ou mesmo que não sejam muito interessados em vinhos, tudo os encanta, porque tudo é novidade. Desde o tamanho dos bagos, à produção do vinho em si. Se falarmos de winelovers, clientes muito interessados em vinho e que já visitaram inúmeras adegas no mundo, é preciso algo mais para os encantar. Normalmente, cada adega ou produtor tem algum aspeto que os torna únicos. Pode ser uma paisagem de vinhas deslumbrante, um edifício desenhado por um arquiteto de renome, uma adega antiga, recheada de elementos históricos e onde ainda se produz vinho atualmente (como é o caso da Adega José de Sousa, onde trabalho agora, e onde temos uma adega de 1878, ainda em funcionamento e onde produzimos o histórico vinho de talha). No entanto, em geral, acho que posso dizer que o que mais encanta quem nos visita é descobrir as tradições, as estórias e as pessoas associadas à produção dos vinhos da região onde estamos.

CR – Quais os maiores desafios com que tem que lidar atualmente no seu trabalho?

LP – Esta área, por ser relativamente recente, tem imensos desafios, quer ao nível da gestão, quer ao nível da operação.

Um dos maiores desafios é, sem dúvida, a relação do Enoturismo com a produção. Uma adega continua a ser uma indústria em produção e onde há regras que devem ser cumpridas. Os turistas querem ver tudo e participar em tudo, portanto, é muito importante conseguirmos mostrar tudo, explicar tudo, proporcionar experiências memoráveis, mas de preferência sem atrapalhar ou pôr em causa o trabalho dos colegas da produção.

Outro dos desafios prende-se com o facto de muitos produtores/ proprietários de adegas ainda não perceberem a importância do Enoturismo. Muito do que fazemos (além do rendimento direto das vendas na loja e da venda das experiências) não é mensurável. Por isso, em muitos casos, o investimento nesta área é fraco, o que tem como consequência, a falta de profissionais qualificados e a falta de condições na receção dos clientes nas adegas. Felizmente, penso que essa situação está a mudar. Hoje em dia, os proprietários de adegas/ produtores estão mais despertos para o Enoturismo e para a importância que este tem na comunicação do produto e no desenvolvimento de experiências inesquecíveis, que conduzem à criação de laços fortes entre a marca e os consumidores.

A dificuldade em encontrar recursos humanos qualificados para o Enoturismo é também um desafio. No fundo, esta área engloba duas outras: turismo e vinhos. Por isso, é necessário que os colaboradores tenham formação em turismo, conhecimentos de 2 ou 3 idiomas, mas que também tenham alguma formação em serviço de mesa, em vinhos e no processo produtivo. Parece-me que esta lacuna, ao nível da formação de técnicos de Enoturismo, já está identificada e já vão aparecendo alguns cursos/ pós-graduações específicas para esta área.

Outro desafio é a necessidade e a importância de trabalhar em rede, contribuindo para o desenvolvimento regional. É essencial que as várias atividades disponíveis numa região – as adegas, os museus, os alojamentos, os restaurantes trabalhem em parceria, recomendando os serviços dos parceiros ou criando programas completos de atividades, para atrair e reter os clientes mais tempo. No entanto, infelizmente, muitos empresários ainda não perceberam a importância da cooperação em vez da competição.

CR – O mercado dos vinhos, associado ao Turismo, é a grande tendência do próximo ano e terá, até, um pavilhão próprio na Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL), o que é inédito e inovador. Na sua opinião, a que se deve este furor todo com o vinho?

LP – Os vinhos portugueses são cada vez mais conhecidos e valorizados no mundo e por isso o interesse por conhecer os locais onde é produzido também tem aumentado. Daí haver uma necessidade de promover internacionalmente Portugal como um país onde o Enoturismo existe e está cada vez melhor. Por outro lado, uma das grandes tendências do turismo a nível mundial é a procura por um turismo de experiências, de contacto com a natureza, com a cultura, as pessoas e as tradições locais. E o Enoturismo é tudo isso:  entregamos experiências vínicas, onde o contacto com a natureza e o conhecimento das tradições relacionadas com o vinho e a vinha está muito presente.

Soube-se ainda recentemente que a próxima Conferência Mundial de Enoturismo da OMT será em Portugal, em Reguengos de Monsaraz, no Alentejo, em outubro de 2020. Por isso, 2020 será com certeza um ano especial para o Enoturismo em Portugal!

CR – Tem um blog de enoturismo. Fale-nos um pouco deste projeto e do que a motiva a mantê-lo. 

É verdade que tenho um blog de Enoturismo, mas, infelizmente, não o tenho atualizado como devia… A ideia surgiu para ter um espaço onde explicar o que é isto do Enoturismo, que não é só visitar adegas e provar vinhos. O Enoturismo é muito para além disso, incluindo atividades de lazer, culturais e sociais, que se possam relacionar com o vinho e as suas tradições (festivais, feiras, exposições, experiências gastronómicas, alojamento numa propriedade vitícola, passeios pelas vinhas, etc). Daí o nome do blog:Para Além do Vinho”, porque o Enoturismo é mesmo isto: descobrir, conhecer e usufruir do vinho e do que está para além do vinho.

Por outro lado, pretendo partilhar as minhas muitas visitas a adegas/ restaurantes/ museus, porque parte do meu tempo de lazer é também utilizado a ser eu própria “enoturista”. Além do gosto pessoal por este tipo de turismo (defeito profissional ou não), acho muito importante visitar outros espaços, tanto para ver o que fazem e como fazem, como para aprender sobre outros vinhos, outros tipos de vinificação ou outras regiões vitivinícolas.

Espero, em 2020, conseguir dedicar-me mais ao meu blog e recomeçar a contar as minhas experiências para que outros se motivem a ser enoturistas!

CR – Conte-nos uma história caricata que tenha acontecido no âmbito do seu trabalho e que queira partilhar connosco.

LP – Enquanto acompanhei um casal à loja de vinhos para comprarem alguns vinhos e despedir-me, um outro casal chegou. Viram a porta da sala de provas aberta e com vinhos (e copos usados!…) em cima da mesa. Entraram, foram à copa buscar copos limpos e provaram os vinhos que quiseram. No final, apareceram na loja a dizer que já tinham provado os vinhos. Imagine a minha cara de espanto! Provaram os vinhos onde? Como? Com que copos?! Final da história: adoraram os vinhos e, depois da devida apresentação da adega, dos vinhos e da explicação do processo de vinificação, ainda compraram umas caixas. É o que se chama Enoturismo em “self-service”!

Muito obrigada, Liliana, pela sua colaboração nesta entrevista e pela dedicação diária à sua profissão. É encantadora!

 

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Se é um profissional de Turismo e gostaria de ser entrevistado no âmbito da rubrica “Os Incógnitos do Turismo de Portugal” entre em contacto comigo, vou gostar de o conhecer

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