As Termas são uma das mais antigas opções para a cura de vários males. Apesar de serem diferentes dos Spas, nos últimos anos a estratégia de atuação tem passado por unir estas duas áreas do bem-estar que, em boa verdade, se complementam. E o que é que Termas e Spas têm a ver com o Turismo? Tudo! Constituem uma das mais importantes motivações de deslocação de sempre, logo é uma área muito direcionada para os turistas e, inclusivamente, está sempre associada a algum tipo de alojamento, a fim de acomodar os utentes.

Para bem receber quem vem à procura de relaxar, descansar e recuperar, estão os melhores profissionais do Turismo. Hoje dou-vos a conhecer uma dessas pessoas. Ele é o Luís Fonseca, Bacharel em Turismo, pela Escola Superior de Turismo e Hotelaria de Seia. É Chefe de Receção de Termas e Spa.

Fui saber um pouco mais sobre esta função, este profissional e o seu percurso:

CR – Estudaste e trabalhas em Turismo. Conta-nos um pouco sobre o teu percurso profissional até aos dias de hoje.

LF – Em 2006 iniciei funções como rececionista de uma estância termal muito conceituada. O primeiro ano foi impactante no meu percurso, ou seja, foi determinante para decidir se queria abraçar os anos seguintes. Gostava do que fazia e o volume de conhecimentos e competências que eram exigidas era entusiasmante. Os ensinamentos adquiridos em contexto académico foram muito úteis, mas tinha agora um novo desafio de aprendizagem: a saúde (patologias, terapias, anatomia, físico-química, hidrologia, entre outros…). Mesmo depois de 15 anos, continuo a descobrir e aperfeiçoar os meus conhecimentos nesta área do Turismo de Saúde, que está em constante mutação e se revela muito exigente.

CR – Como avalias a área do Turismo e Termalismo em Portugal?

LF – O Turismo de Saúde/ Termalismo está atualmente focado na evolução e captação de novos clientes, através de dinâmicas que incentivam estar de novo na moda “ir a termas!” Estamos a assistir a uma transição do termalismo terapêutico (focado na saúde) para o termalismo turístico (focado no lazer e bem-estar). O termalismo é uma das formas mais antigas de turismo e, atualmente, com uma sociedade orientada pela informação, é importante o papel das novas tecnologias para a captação de novos clientes e fidelização dos atuais. A comercialização do turismo de bem-estar/ saúde/ lazer vai ter de assentar, cada vez mais, em plataformas digitais.

CR – O que é que as pessoas procuram nas termas atualmente?

LF – As termas estiveram sempre associadas à palavra Cura, ou seja, tratamento/ alívio de patologias através da utilização das propriedades minero-medicinais da água termal. A sazonalidade (normalmente o período de funcionamento é de Março a Outubro) do termalismo é um fator preocupante e que, em alguns casos, culminou no encerramento temporário ou definitivo de algumas estâncias termais. Para combater esta sazonalidade e captar novos segmentos, estão a surgir novos programas integrados, focados em novas atitudes e motivações: “Bem-estar”, “Relax”, “Anti-Stress”, “Estética”, entre outros…

De salientar que as termas estão também a conquistar clientes desiludidos pela ineficácia e toxicidade da medicação convencional. Estes clientes vêm agora à procura de algo alternativo ou complementar à farmacologia.

CR – Muitas vezes quem está “de fora” acha que por trabalharem num sítio “zen”, os profissionais também estão sempre relaxados, é mesmo assim?

LF – Algumas estâncias termais reúnem no mesmo espaço a vertente terapêutica e a vertente de bem-estar. Outras optam por dividir entre termalismo clássico e Bem-estar/ Spa Termal/ Spa. No meu caso trabalho em dois ambientes diferentes. No balneário termal clássico estamos num contexto parecido com um hospital: balcão de atendimento (informações, marcação de consultas e tratamentos); gabinetes de médicos hidrologistas; sala de espera ampla; zona de tratamentos composta por corredores e cabines de tratamento, num total de 5000 m2. Aqui estamos num espaço que pode receber até 400 pessoas diariamente. O profissional que está no atendimento está constantemente sob pressão, pois, além de dar seguimento a contactos telefónicos, e-mails, clientes presenciais, tem de estar também focado na gestão de quatro variáveis: tempo, disponibilidade de terapeuta, disponibilidade de cabine, duração do serviço/ tratamento. É um ritmo alucinante!

Em ambiente de Spa, aí sim, estamos “no céu”: música ambiente relaxante, aromas de óleos essenciais, zonas de relaxamento e decoração minimalista e confortável. A atenção ao cliente é muito valorizada e os detalhes são muito importantes, o tom de voz, a personalização das terapias. Confesso que ao fim de algumas horas, dias ou meses neste ambiente zen, o nosso cérebro começa a pedir energia: exercício físico, aventuras radicais, visitar uma grande cidade, concertos, etc…

CR – Quais as vantagens e desvantagens da tua profissão atual?

LF – Atualmente exerço funções de Chefe de Receção de Termas e Spa e considero como vantagem o facto de ter que “vestir a camisola”, servir de exemplo na dinâmica de trabalho e atribuir a tarefa certa ao colaborador certo para, juntos, conseguirmos os melhores resultados. Neste momento não encontro nenhuma desvantagem, pois considero ter uma vida profissional e familiar equilibrada.

CR – Segundo a tua experiência, quais as características fundamentais que uma pessoa deve possuir para trabalhar no setor do Turismo e Lazer?

LF – A formação académica é importante, mas o que faz a diferença são as características das pessoas e a forma como põem em prática a aprendizagem. De que vale ser um aluno excelente na área do turismo e depois não ter: bom-senso (o que pode ser dito ou feito em determinado contexto); humildade (capacidade para reconhecer os nossos erros); educação (por favor, com licença, obrigado, de nada – são meras palavras, mas muito importantes nas relações interpessoais); criatividade (no setor do turismo, a inovação e a criação de novos produtos têm de ser uma prioridade constante); flexibilidade e disponibilidade (capacidade para alterar a ideia inicial ou ajustar o caminho a seguir, mas também abdicar, por vezes, de convívio familiar, noites de sono, etc…o turismo é isto mesmo!

CR – Quais os maiores desafios profissionais que enfrentaste até hoje e como lidaste com eles?

LF – Os primeiros desafios foram perceber a melhor forma de gerir as nossas emoções e as emoções do cliente e não interiorizar apreciações ou comentários. A melhor forma de lidar com isto é focarmo-nos na solução e não no problema. Quando assumi funções de chefia de receção entendi que não é fácil “comandar” pessoas, é preciso muito ”jogo de cintura” e a forma como lidei com isto foi implementar uma estratégia de “dar e receber”, tem de haver troca constante de informações para eu receber o resultado/ objetivo e dar-lhes as ferramentas que eles precisam.

CR – Quais as tuas perspetivas de futuro a nível profissional?

LF – Num futuro próximo vejo-me a gerir um empreendimento familiar, em conjunto com a minha esposa (que também tem formação superior em turismo). Idealizo um pequeno resort, inserido na natureza, onde os hóspedes vêm à procura de serviços como nutrição e comida saudável, coaching, yoga, meditação, terapias de Spa, aliados ao melhor da hotelaria. Uma espécie de Retiro para corpo e mente.

CR – Conta-nos uma história caricata que tenha acontecido no âmbito do teu trabalho e que queiras partilhar connosco.

LF – São inúmeras, mas a que me vem agora à cabeça é a de um cliente belga que veio usufruir do circuito de spa, no qual está incluída a utilização da sauna, entre outros equipamentos. Este cliente sai dos vestiários com uma toalha enrolada à cintura e entra na sauna. Pareceu-me uma pessoa habituada a usar este tipo de equipamento. Passados alguns minutos, outro cliente, por sinal português, vem reclamar à receção dizendo que está uma pessoa a fazer exibicionismo na sauna e que ninguém podia lá entrar. Desloquei-me à sauna e vejo o belga descontraidamente a transpirar por todo lado e com a toalha ligeiramente descaída, o que permitia vislumbrar aquilo que estamos todos a pensar.  Amavelmente, alertei o cliente para que recolocasse a toalha e tivesse algum cuidado em a ter à cintura, pois estava a incomodar outros clientes. Ele ficou um pouco admirado e, passados poucos minutos, saiu da sauna e foi-se trocar. Passou na receção e abanou a cabeça em forma de descontentamento. Mais tarde pensei com os meus botões: estamos em Portugal, somos um país conservador e de brandos costumes!

CR – Muito se fala (e cada vez mais) na formação necessária para se trabalhar na indústria do Turismo e da Hotelaria. Qual a tua visão sobre este tema?

LF – A formação em Turismo e Hotelaria fornece ferramentas teórico-práticas muito úteis para o futuro profissional. É também durante a formação académica que começamos a pensar se é isto que queremos e na balança pesam vantagens e desvantagens. Muitos pensam que ao terminarem os cursos na área de turismo ou hotelaria, vão ser de imediato diretores de hotéis, ou presidentes de regiões de turismo. A verdade é que a evolução profissional em turismo é, por vezes, lenta e está na nossa perseverança e resiliência a chave para alcançar o sucesso. Eu como turista fico feliz quando encontro pessoas com formação na área do turismo e hotelaria, cujo objetivo é a satisfação e/ ou superação das necessidades do cliente. Cruzo-me ainda com muita gente a prestar serviços turísticos completamente desfasados da realidade, sem qualquer formação e que mancham a imagem deste setor. Todos falam de Turismo, mas nem todos percebem a sua essência….

Muito obrigada, Luís, pela tua colaboração nesta entrevista e pela dedicação diária à tua profissão. És surpreendente!

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Se é um profissional de Turismo e gostaria de ser entrevistado no âmbito da rubrica “Os Incógnitos do Turismo de Portugal” entre em contacto comigo, vou gostar de o conhecer!

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