Quantas vezes, ao longo do nosso percurso de vida, precisamos de uma opinião, um apoio, um conselho? Muitas, é verdade. A área do Turismo não é exceção e, por isso e muito mais, é preciso haver pessoas sábias, experientes e detentoras do conhecimento, dispostas a auxiliar quem precisa e quer desenvolver um trabalho de qualidade.

Hoje dou-vos a conhecer uma dessas pessoas. Ele é o Luís Francisco, Consultor de Turismo, que se apaixonou por esta área, desde cedo, por ver o entusiasmo do seu Pai a trabalhar na Agência de Viagens Europeia. Ao longo dos últimos 38 anos, passou por quase todas as áreas da indústria, o que lhe permite ter uma visão 360° da mesma, o que é, por si só, um feito excecional.

Fui saber um pouco mais sobre estas funções, este profissional e o seu percurso:

CR – O Luís tem já uma história longa no Turismo. Conte-nos um pouco sobre o seu percurso profissional até aos dias de hoje.

LF – Comecei em 1981, com 18 anos, no incoming da Ivo Tours (atual Citur), no departamento de grupos; passei para o outgoing, para o operador turístico TUROPA, no departamento de reservas, depois nas grandes viagens (transiberiano, rota da seda,…) até chegar a área manager, no departamento de contratação e programação de destinos turísticos; ao fim de 11 anos, fui para a aviação comercial, mudei para os GDS (Global Distribution System) Galileo e Amadeus, onde cheguei a diretor geral; e, depois, PGA-Portugalia Airlines, Delta Airlines, Transbrasil e Air Luxor; nova mudança para a promoção turística, primeiro como representante do Turismo da Republica Checa em Portugal e, posteriormente, diretor geral executivo do Turismo do Algarve – vertente de promoção externa; atualmente dedico-me à consultoria e à docência.

CR – Como avalia o setor do Turismo em Portugal?

LF – Avalio com apreensão porque vejo que não estamos preparados para os desafios que vamos enfrentar. Já há indícios – regresso da concorrência dos países Mediterrânicos e Egipto e a questão da desvalorização da libra inglesa – mas o discurso ainda é de muita euforia, como se estivéssemos inebriados com os prémios de melhor destino do mundo. O turismo funciona por ciclos e, nestes 38 anos de atividade, já vi muita coisa. Não sou pessimista, mas adoro esta indústria e custa-me ver que não nos estamos a preparar para as “ondas grandes” que podem vir aí. Se estiver enganado, ótimo. Outra coisa que me preocupa no turismo é: como é que uma atividade que tem um peso direto tremendo no PIB e economia (já para não falar no peso indireto), gera milhões de lucro, etc… paga tão mal, permite tanta precariedade, trata tão mal os seus colaboradores, não retém o talento? Não consigo perceber.

CR – Como caracteriza a sua relação com o Turismo?

LF – Amor puro por uma atividade maravilhosa. É a minha vida!

CR – Porque é que nunca estudou Turismo? Na sua opinião não é preciso especializar-se para se trabalhar em Turismo?

LF – Mas eu estudei turismo! Ainda bem que me coloca essa questão. Realmente, licenciei-me em Direito, mas, desde 1981 até hoje, estou continuamente a tirar cursos e formações nas diversas áreas do turismo. De tal forma, que tenho os meus próprios pensamentos, que nem sempre coincidem com a maioria do trade ou com a Organização Mundial do Turismo ou o Turismo de Portugal IP.

CR – De todas as funções que já assumiu na área do Turismo, de qual gostou mais e porquê?

LF – Sem dúvida a de vice-presidente executivo da Air Luxor. Não pelo cargo em si, mas por ter tido a possibilidade de, em conjunto com outro vice-presidente da companhia e o Presidente, criar uma companhia aérea de raiz. Delineámos a estratégia from scratch a todos os níveis: aviões, pessoal de voo, pessoal de terra, marketing, comerciais, administrativos, financeiros, etc. Foi um desafio tremendo, bastante duro, cheio de adversidades, em que cada vitória era festejada. Absolutamente fantástico!

CR – O que faz, exatamente, um Consultor de Turismo?

LF – É uma pergunta para a qual existem muitas respostas. No meu caso, sou alguém que costuma criar estratégias gerais de empresas, instituições e destinos turísticos. Só que envolvo-me tanto nessas estratégias e com as entidades que acabo por ajudar a implementá-las e vou monitorizando todo o trabalho, passando a ser um conselheiro. Isto para dizer que, na prática, sou muito mais que um consultor de turismo. 

CR – Atualmente qual é o seu maior desafio a nível profissional e como lida com ele?

LF – Quando as expetativas que os Destinos Turísticos têm de si próprios são demasiado elevadas, o meu papel é fazer uma análise realista e assertiva com os prós e contras. Às vezes, fazer entender às pessoas que muitos dos contras devem ser vistos como desafios que se podem tornar em oportunidades, se bem trabalhados, é o mais difícil. Acontece que o primeiro passo para essa transformação, é a aceitação, pelas Pessoas da região, de que o Destino não é o “melhor do mundo” e que não se compara a outros já consolidados e com oferta superior. Compreendo a reação das pessoas, mas se elas não se envolverem no processo, não é um consultor de turismo externo que vai transformar um Destino Turístico num bom produto. À medida que vão percebendo o meu envolvimento e entrega, consigo que se entreguem também e que percebam o que lhes tento transmitir.

CR – Na sua opinião, a profissão de Consultor é uma profissão só para profissionais séniores?

LF – Não, claro que não. Depende muito do tipo de consultoria que se pretende. Mas, quando falamos em consultor sénior, não devemos confundir com alguém que tenha 30 anos de experiência, só de per si. Dou um exemplo: há uns tempos solicitaram-me uma estratégia para o desenvolvimento de um produto turístico num determinado país. Fiz essa mesma estratégia em conjunto com os técnicos locais. Posteriormente, para esse mesmo plano, pediram-me um add on sobre um tema que não domino. Indiquei um colega meu. Voltamos à questão do estudo. Não me licenciei em turismo mas passei os últimos 38 anos a estudá-lo e, de há largos anos para cá, comecei a criar o meu próprio pensamento sobre a atividade. Este é um ponto importante para se ser um bom consultor: pensar pela sua cabeça e, para além do “saber-saber”, dominar o “saber-fazer”.

CR – Que conselho daria a profissionais mais jovens que pretendem fazer consultoria em Turismo?

LF – Primeiro que comecem a trabalhar com consistência e estejam sempre a aprender. Depois, que, ao longo do tempo, vão desenvolvendo um bom networking. E que não “se limitem” a fazer/dizer o que os outros fazem/dizem. Estudem, reflitam, pensem pelas suas cabeças. Mas, sem experiência, sem terem falhado algumas vezes, é difícil.

CR – Ao contrário do que muitas pessoas pensam, trabalhar em Turismo não é ser turista, mas a verdade é que é uma área onde, por vezes, tem que se viajar muito em trabalho, como sei que já foi o seu caso. Qual a perspetiva que tem sobre as viagens hoje em dia?

LF – Já viajei por 46 países, quase sempre em trabalho e, nalgumas vezes, misturando lazer. Estávamos numa época em que tínhamos de visitar tudo in loco porque não havia internet. Hoje já não é assim. Ao princípio, tantas viagens… é fantástico, mas, com o tempo, começa a ser complicado. Cheguei a aterrar em Lisboa, vindo da Tailândia com 30ºC e 70% de humidade, sair da zona de embarque e vir trocar malas com a minha mulher porque ia para Nova Iorque, onde estavam 8ºC… Tem de se ter um bom apoio familiar! As viagens são bastante cansativas, até porque o trabalho, no escritório, vai-se amontoando…

Muito obrigada, Luís, pela sua colaboração nesta entrevista e pela dedicação diária à sua profissão. É um mestre!

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Se é um profissional de Turismo e gostaria de ser entrevistado no âmbito da rubrica “Os Incógnitos do Turismo de Portugal” entre em contacto comigo, vou gostar de o conhecer!

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