Mais uma profissão ligada à hotelaria, mais uma voltinha! Hoje transporto-vos para aquele momento em que chegam ao hotel, carregados de malas e bagagens e, depois de fazerem o check-in, ainda têm um longo caminho para enfrentar até chegarem ao vosso quarto. Visão desagradável não é?

Mas há pessoas, profissionais solícitos e empenhados, que o podem ajudar nesta tarefa, nomeadamente os Bagageiros. Hoje dou-vos a conhecer uma dessas pessoas. Ele é o Manuel Velez, que vem do Pafarrão e se licenciou em Gestão Turística e Cultural no Instituto Politécnico de Tomar.

Fui saber um pouco mais sobre estas funções, este profissional e o seu percurso:

CR – Como é que surgiu a vontade de estudar e trabalhar em Turismo?

MV – Sempre tive vontade de trabalhar neste ramo, pela possibilidade de exposição a várias culturas, para um enriquecimento mais pessoal. Assim, em 2013, iniciei o curso de Gestão Turística e Cultural no Instituto Politécnico de Tomar, terminando em 2016. Nesse mesmo ano, comecei a trabalhar na área, permitindo-me conhecer os vários espaços turísticos da cidade de Tomar e, em 2018, aceitei uma proposta para desempenhar a função de bagageiro no Algarve.

CR – A maior parte das pessoas acha que um Bagageiro só serve para carregar as malas dos hóspedes, mas a função vai muito além disso. Em que medida?

MV – O bagageiro é um dos primeiros contactos do cliente com o hotel, por isso a sua função é determinante para a boa imagem do estabelecimento. A tarefa principal do bagageiro é transportar as malas dos clientes da receção (ou do carro) ao quarto e do quarto à receção (ou ao carro); além disso, o bagageiro presta apoio a todo o front office (e não só), quer a fazer check-in, check-out, pick-up da piscina para o quarto (por exemplo), room service, entre outros.

CR – Esta função é comummente atribuída a pessoas sem formação ou mais jovens, quer na idade, quer do ponto de vista da experiência profissional. Parece-lhe uma abordagem correta?

MV – Não concordo, mas compreendo. Há que considerar que o bagageiro está num dos níveis mais baixos da hierarquia hoteleira, o que ajuda a fortalecer essa ideia, mas nem sempre é verdade que não têm formação, eu próprio sou licenciado. Tive colegas bagageiros mais novos e mais velhos que eu e todos muito competentes, portanto tem mais a ver com preconceitos que vão sendo criados e enraizados pela área e pela sociedade.

CR – Qual o verdadeiro impacto do trabalho do Bagageiro para a qualidade de um serviço em Hotelaria? 

MV – O bagageiro é um elemento da equipa que permite criar um sentido de conforto e, até, um ambiente familiar com o cliente, na medida em que estabelece uma relação de segurança, comodidade e bem-estar. Há alguns estabelecimentos que optam por não ter este serviço e não vou dizer que ele é indispensável, mas faz toda a diferença para um cliente cada vez mais exigente e rigoroso.

CR – Quais as principais características que se deve possuir para se ser um bom Bagageiro?

MV – Acima de tudo ter um certo à vontade para falar com os clientes, mas, ao mesmo tempo, saber manter a distância (evitar falar de certos assuntos que instigam discussões acesas como política, religião, etc.), ter conhecimentos ao nível das línguas, sendo o inglês fundamental. Considero importante manter uma boa postura e uma imagem limpa.

CR – Há um mito em Hotelaria que diz que esta é a melhor função que se pode ter num hotel, porque é onde se ganha mais gorjetas. É verdade? Como lida com isso?

MV – É verdade que ganhamos boas gorjetas, mas, como é uma das funções mais mal pagas em todo o hotel, no fim, a compensação não é tão significativa assim. Além disso, reflete o esforço em agradar e prestar o melhor serviço possível e isso não se consegue tão facilmente como se poderá pensar. É preciso empenho, dedicação e espírito de sacrifício.  

CR – Quais os maiores desafios com os quais tem que lidar na sua profissão atual e como lida com eles?

MV – Penso que o maior desafio será o choque cultural com clientes estrangeiros, especialmente se não me sentir à vontade com a língua, no entanto, esse também é um desafio que torna o meu trabalho interessante, porque me motiva a aprender sempre mais e melhor.

CR – Continuar a trabalhar em Hotelaria está no seu horizonte para o futuro?

MV – Tenho pensado na função de guia intérprete, pois gosto da interação com as pessoas e da possibilidade de aprender com elas. Mas não descarto de todo a possibilidade de carreira em hotelaria, há um certo prestígio nesta área.

CR – Conte-nos uma história caricata que tenha acontecido no âmbito do seu trabalho e que queira partilhar connosco.

MV – É um pouco difícil selecionar uma história especifica, porque todos os dias são uma aventura. Mas posso dizer que, por norma, a cada situação, eu e os clientes ficamos sempre bem-dispostos, trocamos piadas e pontos de vista culturais.

CR – Muito se fala (e cada vez mais) na formação necessária para se trabalhar na indústria do Turismo e da Hotelaria. Qual a sua visão sobre este tema?

MV – Considero necessário e importante ter formação para se trabalhar nesta área, mas, na minha opinião, é quando vamos para o mundo do trabalho que aprendemos realmente. No meu caso, quando comecei a trabalhar em hotelaria, não tinha praticamente experiência nenhuma, por isso vim pouco preparado para este mundo; aqui sentimos na pele o que é “estar no lodo” e a necessidade de rapidez para executar as tarefas. Por outro lado, também é preciso criar uma certa paciência e calma. Tudo se trata de encontrar um equilíbrio para desempenhar as tarefas com eficácia. Assim, considero que os cursos mais práticos e com mais estágios são mais adequados para quem quer seguir hotelaria.

Muito obrigada, Manuel, pela sua colaboração nesta entrevista e pela dedicação diária à sua profissão. É impressionante!

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Se é um profissional de Turismo e gostaria de ser entrevistado no âmbito da rubrica “Os Incógnitos do Turismo de Portugal” entre em contacto comigo, vou gostar de o conhecer!

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