O Turismo é uma Ciência Social e Humana. Sim, é ciência e, como tal, carece de investigação. Aposto que nunca tinha pensado nisso! Normalmente, quando pensamos em Turismo só nos lembramos das férias, dos hotéis e dos restaurantes, do lazer e do descanso, mas, quando toca a temas mais sensíveis como a sustentabilidade ou outros, como lhe parece que se chegam a determinadas conclusões? É preciso estudar, investigar, pesquisar, apurar. É preciso haver profissionais apaixonados pela área, ao ponto de quererem saber mais e melhor, sobre temas que irão proporcionar uma melhoria das condições de trabalho a quem está no terreno e aos próprios turistas.

Hoje dou-vos a conhecer uma dessas pessoas. Ela é a Marília Durão, Investigadora Científica na área do Turismo, na Universidade de Aveiro, a quem foi atribuída uma Bolsa de Doutoramento pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Começou a trabalhar em investigação quando ainda estava no Mestrado, em 2008, e desde aí que tem vindo a participar em inúmeros projetos, dedicados a várias temáticas dentro deste grande mundo que é o Turismo.

Fui saber um pouco mais sobre estas funções, esta profissional e o seu percurso:  

CR – Conta-nos um pouco sobre o teu percurso desde a escolha do curso até aos dias de hoje.

MD – Eu comecei a trabalhar pouco tempo depois de ter começado o meu curso (Licenciatura em Turismo, no Instituto Superior de Administração e Gestão) e nunca conheci outra realidade que não a de trabalhadora-estudante. Como era boa aluna, vários professores me incentivaram a prosseguir estudos e fui para a Universidade de Aveiro fazer o Mestrado em Gestão e Planeamento em Turismo. Foi nessa altura que comecei a trabalhar no meu primeiro projeto de investigação. Algum tempo depois, e após ter passado por outros projetos, ingressei no Programa Doutoral em Turismo e tenho, atualmente, financiamento próprio.

CR – Normalmente as pessoas associam a investigação a áreas como a medicina. É mesmo possível ou necessário investigar em Turismo?

MD – É verdade! É muito frequente as pessoas mostrarem curiosidade quando refiro que sou investigadora científica, tal como é frequente pensarem logo em áreas como a biologia ou a química, em trabalho de laboratório. Há um maior desconhecimento e menor valorização no que toca às Ciências Sociais. Mas, se tivermos em conta que o Turismo é um dos principais setores económicos do país, não só faz todo o sentido, como é urgente, conhecer com mais profundidade a grande multiplicidade de fenómenos que lhe estão associados.

CR – Nesta área tão operacional, onde ficam os investigadores? Há mesmo lugar para eles no mercado de trabalho nacional?

MD – Eu acredito que há lugar e que poderíamos trazer muitas mais-valias, nomeadamente inovação e conhecimento para as empresas, mas reconheço que o nosso trabalho é muito associado ao mundo académico e pouco valorizado no contexto empresarial. E isso acontece nesta área, como em muitas outras. Por isso, e infelizmente, em contexto empresarial, as poucas oportunidades que existem são essencialmente no domínio da consultoria.

CR – Sentes falta da componente prática do Turismo ou isso não é um problema para o desempenho das tuas funções?

MD – Eu comecei a trabalhar desde que ingressei no Ensino Superior e tudo o que fiz esteve sempre relacionado com a área do Turismo e da Hotelaria; passei por áreas muito variadas desde alojamento, a catering e eventos, até a um espaço de artesanato contemporâneo e também já dei aulas. De certa forma, sinto falta de lidar com o público – coisa para a qual acho que tenho uma certa vocação – e de um certo hands-on, daquele desafio. Ainda hoje, a hotelaria mais em particular, exerce grande fascínio sobre mim. Noto que todas as minhas experiências anteriores foram de grande ajuda em todo o trabalho que tenho vindo a desenvolver enquanto investigadora.

CR – Quais as grandes vantagens e desvantagens do teu trabalho?

MD – Para mim, a principal vantagem é a possibilidade de conhecer tantas pessoas interessantes, de todas as partes do mundo, pois acabamos por colaborar com muitos colegas investigadores, assim como é frequente organizarmos eventos científicos que trazem as pessoas até à nossa Universidade ou nós próprios irmos a conferências noutros países. Como cada projeto é diferente, e apesar de algumas tarefas serem comuns, acabamos por não ter um trabalho muito monótono, não estamos sempre a fazer as mesmas coisas. Também tem a grande vantagem de podermos gerir os nossos horários e, por vezes, até trabalhar à distância. Quanto a desvantagens, é um trabalho muito sedentário, emocionalmente muito exigente e precário. Os bolseiros de investigação constituem uma categoria profissional específica e distinta das outras, com proteções sociais muito limitadas (não temos, por exemplo, direito a subsídio de desemprego). Os contratos de trabalho nunca são muito longos (2/3 anos), pelo que estamos sempre na dúvida se poderão ser renovados, se há outros concursos a que nos possamos candidatar… e sendo esta uma área à qual é atribuído pouco financiamento, cada vez é mais complicado (só à 4ª tentativa, por exemplo, consegui financiamento para o meu Doutoramento). Por isso, por muito bons que sejamos, a nossa Universidade, a nossa equipa, pode não ter recursos para nos manter.

CR – Um investigador passa a vida a estudar ou isso é só um mito?

MD – Há aí uma certa verdade, pois por muito que nos especializemos numa determinada temática, há sempre desenvolvimentos e novas leituras que podem ser feitas. E quando começamos a trabalhar com um tema novo, é claro que isso envolve uma certa dose de pesquisa. Não se trata de um estudo formal, como quando somos alunos, mas para produzirmos com qualidade e construirmos um Curriculum Vitae interessante e competitivo, a atualização e a aquisição de conhecimentos/ competências tem de ser uma constante. Mesmo em termos metodológicos, surgem novas ferramentas e procedimentos com que temos de nos familiarizar. O nosso dia-a-dia passa muito pela elaboração de check-lists de tarefas que vamos cumprindo consoante a nossa calendarização e os outputs que temos de entregar. Estas tarefas podem passar por revisão de literatura, pesquisa de informações, preparação de trabalho de campo, recolha de dados, análise de dados ou redação de relatórios ou artigos.

CR – O que mais te apaixona na área do Turismo e porquê?

MD – É uma área muito versátil, muito abrangente, dentro da qual podemos sempre procurar atividades e temas com os quais mais nos identifiquemos. Eu própria já trabalhei com temas muito variados e tenho colegas a trabalhar assuntos e abordagens muitíssimo interessantes! Talvez seja um cliché, mas, na Hotelaria, que talvez seja, de todas, a área que sempre mais me encantou, atraía-me a possibilidade de contactar com pessoas de todas as partes do mundo, porque nos alarga os horizontes, e de saber como eram os bastidores, como funcionava toda aquela fabulosa engrenagem.

CR – Qual é o próximo passo a seguir ao Doutoramento? Quais os teus projetos para o futuro?

MD – Para já, é ainda uma incógnita. Gostaria muito de poder continuar a fazer investigação em exclusivo, mas é complicado, pois as oportunidades para doutorados são ainda menores. Posso concorrer a uma bolsa de Pós-Doutoramento ou fazer uma proposta para um projeto, mas são soluções sempre muito incertas. Também gostaria de poder voltar à indústria, mas como já referi, acho muito difícil encontrar uma posição onde o meu nível de formação seja valorizado. Outra opção em aberto será a de dar aulas, que felizmente é algo que me agrada imenso e que, no caso do Ensino Superior, me permitiria continuar a fazer investigação, porque é sempre uma mais-valia.

CR – Qual a marca que pretendes deixar no mundo do Turismo?

MD – É curioso que me faças esta pergunta pois quando estamos a fazer um Doutoramento, uma das perguntas mais frequentes a que temos de responder é similar: “qual é o nosso contributo?” Sou uma pessoa de ambições modestas neste domínio. Tenho-me preocupado em ser uma pessoa correta e sensata, tanto nos meus métodos de trabalho, como na forma de me relacionar com as pessoas com quem trabalho. Embora todos os projetos tenham um contributo, sempre me preocupei muito com a utilidade e aplicabilidade do meu contributo. Quando preparei a candidatura para tentar obter financiamento era nisso que pensava; mudei de tema radicalmente à 4ª tentativa e foi essa que veio a ser aprovada. Dada a importância do Turismo para o nosso país, a sua crescente popularidade enquanto opção de carreira (cada vez mais alunos procuram cursos nesta área) e a ótima performance que tem tido nos últimos anos, cada vez me questionava mais “onde ficam, nesta equação, as pessoas que aí trabalham, sobretudo aquelas que fizeram um investimento (financeiro, emocional, de tempo, …) na sua formação e que ambicionavam construir uma carreira neste setor?”. O meu estudo poderá não ser considerado groundbreaking, mas é fundamental que se pense e se discuta sobre estas questões, para que possam vir a ser parte da agenda de gestão e de planeamento do Turismo no nosso país. Se conseguir que, pelo menos os intervenientes na minha tese reflitam sobre isso, já é uma vitória, já terei chegado a alguém que um dia poderá fazer a diferença para si próprio e para outras pessoas com quem trabalhe.

CR – Conta-nos uma história caricata que tenha acontecido no âmbito do teu trabalho e que queiras partilhar connosco.

MD – Há uns anos trabalhei num projeto em que tivemos de ir aos Açores realizar um focus group com empresários e outros stakeholders do Turismo nesta região. Cada participante tinha uma placa com o seu nome, no seu lugar, para facilitar a interação com e entre eles; quando a reunião estava prestes a começar fui avisada que uma das participantes não poderia comparecer, mas que o pai viria em sua substituição, pelo que tratei de preparar uma nova placa para imprimir. Nessa altura, já o meu computador estava em modo de projeção (que me esqueci de desligar), e os presentes – incluindo o meu coordenador – assistiram à minha malograda tentativa de escrever o nome do senhor, que me estava a ser ditado por uma nossa colega investigadora, também açoriana. Isto porque ela me dizia repetidamente que ele se chamava Albone tal tal tal (é favor ler com sotaque açoriano 😊; sendo tal o apelido do senhor, que aqui estou a omitir). Sempre que escrevia o nome ela dizia “Não! Não é assim. É Albone tal tal tal”. Eu bem que achei estranho, mas lá escrevia (afinal há nomes incomuns em todo o lado!), até que à terceira tentativa ela me diz “Albone não é com O, é com A”. Só aí me apercebi que com isso ela queria dizer que o senhor se chamava Albano e é escusado dizer que foi risota geral. “Vê-se logo que a menina é do Continente”, diziam-me. Foi ótimo para quebrar o gelo, mas passei o dia com a cara da cor do tomate 😊.

Muito obrigada, Marília, pela tua colaboração nesta entrevista e pela dedicação diária à tua profissão. És exímia!

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Se é um profissional de turismo e gostaria de ser entrevistado no âmbito da rubrica “Os Incógnitos do Turismo de Portugal” entre em contacto comigo, vou gostar de o conhecer!

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