Os portugueses, que se aventuraram, em tempos longínquos, por esses mares nunca antes navegados, sempre souberam o valor da água. Hoje o Turismo usa-se dos poderosos rios de que dispomos, para dar a conhecer algumas das mais belas paisagens deste magnífico país.

Para organizar estas viagens e garantir que tudo corre na perfeição, é preciso muita competência, profissionalismo e responsabilidade dos melhores especialistas em viagens de navios. Hoje dou-vos a conhecer uma dessas pessoas. Ela é a Marlene Castro, ship coordinator, natural de Marco de Canaveses, mas que vive, atualmente, na cidade do Porto, para viver o seu sonho de trabalhar em Turismo.

Fui saber um pouco mais sobre estas funções, esta profissional e o seu percurso:

CR – O que a motivou a estudar/ trabalhar em Turismo?

MC – A minha escolha pela área do Turismo deveu-se à minha paixão e curiosidade em conhecer novas culturas, bem como ao gosto pelo contacto com o publico.

CR – Como caracteriza o mercado dos navios em Portugal?

MC – O mercado dos cruzeiros em Portugal, a meu ver, é um mercado em franca expansão, pois o nosso país é conhecido por ser seguro, por ter paisagens incríveis e por ser um mercado relativamente acessível a nível económico, por isso as perspetivas são animadoras.

CR – Hoje assume-se como Ship Coordinator, mas a verdade é que já fez de tudo um pouco no âmbito dos navios de pequena dimensão. Fale-nos deste percurso em particular e da importância da polivalência no Turismo. 

MC – Após acabar a minha licenciatura, iniciei a minha carreira na empresa onde atualmente me encontro. Comecei por ser assistente de bordo, ou seja, fazia todo o acompanhamento de clientes, desde o ponto de partida do cruzeiro, até ao fim do programa; depois passei para o escritório e estava responsável pela área de grupos e eventos, realizados em barcos mais pequenos e cujos programas tinham uma duração mais curta; trabalhei na área de sightseeing, na qual fazia todo o processo de organização de programas, venda, faturação e atendimento ao cliente; por último, passei para a parte comercial de navios hotel, inicialmente como financial coordinator e, posteriormente e onde me mantenho, como ship coordinator. Este foi um percurso natural numa empresa onde dão oportunidades de crescimento e evolução aos seus colaboradores, o que temos que aproveitar e agarrar, se queremos crescer e evoluir profissionalmente. Em Turismo a polivalência é fundamental, porque se trata de uma área multidisciplinar e, se nos soubermos adaptar, “o céu é o limite”.

CR – O que faz exatamente um Ship Coordinator?

MC – Neste caso específico, um ship coordinator trata de todo o processo inerente a cada cruzeiro. Começamos por receber a informação enviada por cada operador, inserimos os manifestos para cada cruzeiro, bem como a informação pertinente para o navio ter conhecimento, fazemos todas as marcações de visitas, guias oficiais, refeições e espetáculos, damos todo o apoio ao navio enquanto realizam os cruzeiros e, por fim, tratamos de toda a faturação inerente ao cruzeiro em si.

CR – Teve uma experiência como Técnica de Assistência em Escala. Analisando bem as duas áreas, quais as grandes diferenças entre a aviação e os navios?

MC – A principal diferença, na minha ótica, prende-se essencialmente com a personalização do serviço. Na aviação, pelo seu volume, acabamos por não conseguir prestar atenção ao cliente, enquanto que nos navios/ cruzeiros o serviço é à medida do cliente, logo conseguimos fazer com que se sinta em casa, importante e mimado.

CR – Apesar de ter passado por outras experiências, estacionou há já alguns anos nos navios. Amor, paixão ou vício?

MC – Costumo usar uma frase de Fernando Pessoa, que acho que traduz em muito o que me “prende” a esta área: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”.Primeiro temos noção da complexidade desta área, do trabalho que acarreta e do tempo que nos toma, mas depois apaixonamo-nos e ficamos!

CR – Quais os maiores desafios desta profissão e como os ultrapassa?

MC – O maior desafio são, sem dúvida, as pessoas. Conseguir lidar e adaptarmo-nos todos os dias a pessoas tão diferentes é uma luta diária. Depois temos desafios que se prendem com as condições da envolvente, como as cheias ou as secas que nos impedem a navegação, por isso estamos constantemente a ser postos à prova, mas nada que foco e determinação não resolvam. No fim, vale muito a pena. 

CR – Acredito que trabalhe frequentemente com estagiários. Conte-nos um pouco como têm sido estas experiências e diga-nos que conselho daria aos mais novos, de modo a otimizar os seus estágios em Turismo.

MC – Na área comercial de navio hotel, onde me encontro, não trabalho com estagiários diretamente, no entanto já trabalhei anteriormente noutras áreas. Sinto que é um tentar passar conhecimentos e experiências que queremos que sejam um ensinamento, para alguém que está a começar, e que não queremos que passem por algumas coisas menos boas que vivenciamos. Mas, sobretudo, tento passar-lhes que o Turismo é uma área que nos pede paixão e gostar mesmo do que fazemos, pois há alguns sacrifícios que temos de enfrentar.

CR – Conte-nos uma história caricata que tenha acontecido no âmbito do seu trabalho e que queira partilhar connosco.

MC – Enquanto trabalhava como assistente de bordo, tive um passageiro que adquiriu um programa de dois dias de subida e descida de barco no Douro. No segundo dia o cliente estava super chateado e indignado, porque estava a descer pelo mesmo “caminho” por onde tinha subido, e por muito que lhe tentasse explicar que o Rio Douro era só um, ou seja, tinha que descer pelo mesmo rio, ele não percebia!

CR – Se tivesse uma lâmpada mágica e pudesse fazer um pedido pelo Turismo de Portugal, o que pediria e porquê?

MC – Pediria, sem dúvida, que o Turismo fosse encarado menos como indústria altamente lucrativa e passasse a ser um meio de dar a conhecer o melhor que o nosso país tem, porque essa é a verdadeira essência do Turismo e a massificação está a levar-nos para caminhos menos agradáveis.

Muito obrigada, Marlene, pela sua colaboração nesta entrevista e pela dedicação diária à sua profissão. É notável!

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