Estudar Turismo ao nível superior: sim ou não? Eis a questão! Para quem quer seguir este caminho, tem, hoje, várias opções. A academia está cada vez mais bem preparada para lançar estes novos profissionais para o mercado e, para isso, conta com os melhores Professores.

Hoje dou-vos a conhecer uma dessas pessoas. Ele é o Nuno Abranja, Professor Universitário de Turismo. É Doutorado em Ciências do Trabalho, com especialização em Empreendedorismo Turístico. É Mestre e Licenciado em Turismo e tem Bacharelato em Turismo, Hotelaria e Termalismo. É Diretor do Departamento de Turismo do ISCE e professor convidado no Grupo Lusófona. É editor executivo do Tourism and Hospitality International Journal. É CEO da consultora OMelhorDoTurismo. É consultor, business coach e formador para várias empresas. É membro de 28 comités científicos internacionais, autor e coautor de seis livros e inúmeros artigos científicos e comerciais. É, também, finalista na categoria “Melhor Carreira de Docente no Ensino Superior 2019” nos Hospitality Education Awards.

Fui saber um pouco mais sobre estas funções, este profissional e o seu percurso:

CR – Como é que o Turismo entra na sua vida?

NA – Iniciei no turismo em 1995, no curso de bacharelato em Turismo, Hotelaria e Termalismo no ISCE. Fiz o meu primeiro estágio em 1997 como empregado de mesa e golf caddy na Quinta da Marinha, em Cascais, e, a partir daí, tive outras experiências em hotelaria e em agências de viagens. Continuei os estudos na licenciatura em Planeamento e Desenvolvimento Turístico, na ULHT. Em 2001 entrei no mestrado em Gestão do Desenvolvimento em Turismo, na Universidade de Aveiro e iniciei funções docentes no ISCE, instituição onde continuo hoje como diretor do Departamento de Turismo e coordenador Erasmus e do Gabinete de Empreendedorismo. Concluí a pós-graduação em 2002 e o mestrado em 2005 e fui convidado pela Universidade Lusófona para lecionar, onde continuei durante 11 anos. Em 2007 criei a minha própria empresa de manuais de turismo e de consultoria turística/ business coaching – OmelhorDoTurismo –, ainda hoje a funcionar em Portugal e CPLP. Tenho colaborado como professor em Portugal e no estrangeiro em diversas instituições. Em 2013 concluí o doutoramento em Ciências do Trabalho – Empreendedorismo Turístico na Universidade de Cádiz. Neste mesmo ano, criei a revista científica Tourism and Hospitality International Journal. Sou investigador no ISCE-CI e no CITUR.

CR – Como caracteriza o ensino universitário de Turismo em Portugal?

NA – Devo dizer que me preocupa o caminho que o ensino superior do turismo e das áreas afins está a levar, uma vez que estamos a entrar numa publicaçãodependência tão extrema que se está a secundarizar o próprio ensino. Ou seja, as exigências de investigação, publicações e evidências em geral que o órgão de acreditação e avaliação do ensino superior vem fazendo nos últimos anos, a juntar-se à premente necessidade das instituições em “venderem” serviços da mesma natureza para se auto subsidiarem, tem transformado o tempo dos professores, em que deixam de se concentrarem na construção de aulas realmente criativas, inovadoras e empreendedoras, para se confinarem à produção das evidências que referi.

Também me preocupa a doutoramentodependência que se vem verificando nos últimos dois anos. Isto é, as obrigações legais impostas às instituições de ensino superior nos dois subsistemas, universitário e politécnico, para cumprirem os ratios de docentes doutorados nos seus cursos, tem levado a uma desenfreada missão para conseguirem concluir os seus cursos em tempo recorde, para não serem ultrapassados por outros professores sem experiência e sem produção científica, mas com doutoramento. Esta situação leva também, naturalmente, que o ensino venha a ser entregue a professores que não estarão, por ventura, preparados para prestar o ensino de excelência que tanto precisamos.

Por outro lado, também tenho alguma esperança que o ensino superior venha a melhorar gradualmente com o aparecimento de professores especialistas, trazendo grandes profissionais para a academia e a proporcionar a oportunidade de partilha de conhecimentos e competências mais reais ligadas ao mercado de trabalho.

CR – Um dos temas mais analisados e debatidos pelos potenciais alunos de Turismo é a diferença entre estudar num politécnico ou numa universidade. Quais as grandes diferenças e qual a melhor opção na sua opinião?

NA – Eu já tive a felicidade de conhecer muito bem por dentro os dois subsistemas de ensino e consigo dizer que atualmente não se verifica diferença substancial. É sabido que as universidades devem praticar uma formação mais teórica, científica, enquanto os politécnicos um ensino mais técnico e prático. Neste sentido, sustentado nesta “filosofia”, o meu conselho para os futuros alunos é: quem pretender aprender o turismo de uma forma mais teórica deve optar pelas universidades e os que procuram um ensino mais prático, que escolham os institutos politécnicos. Ambos são ensino superior.

CR – De acordo com a sua perspetiva e experiência, há colocação e espaço suficiente no mercado português para profissionais formados ao nível superior numa área tão prática como o Turismo?

NA – O ensino superior não é o oposto de formação prática. Muito pelo contrário. Eu tenho, por exemplo, o prazer de coordenar uma licenciatura em Turismo e uma outra em Gestão Turística, no ISCE, em Odivelas, e a quantidade de atividades práticas é muito elevada, desde viagens, visitas de estudo, palestras, organização de eventos, atividades de animação turística, provas de vinhos, cozinha laboratorial, debates, estudos de caso, etc., a aulas muito interativas e tecnológicas. O mercado está preparado para receber os recém-licenciados, não pode é continuar com a ideia fechada de que estas pessoas chegam às empresas e fazem a diferença imediatamente. Eu gosto de dizer que tirar uma licenciatura é como tirar a carta de condução. Ou seja, ficamos realmente habilitados para conduzir mas não dominamos o carro. Precisamos de tempo para mostrarmos do que somos capazes. Nas empresas turísticas acontece o mesmo e estes recém-licenciados podem fazer a diferença se lhe derem condições para isso, mas infelizmente no turismo as nossas organizações ainda estão muito “agarradas” à antiga filosofia de lucro rápido (mas muitas vezes efémero).

CR – O Turismo e os seus derivados são áreas onde é muito gratificante trabalhar, mas também muito duro. Como se motivam os jovens de hoje em dia para o que os espera no mercado de trabalho?

NA – Trabalhar em turismo é como uma rosa, que tem um perfume e um cheiro maravilhosos mas também têm espinhos, que se não tomamos as devidas precauções deixam-nos marcas e magoamo-nos. Neste assunto eu sou sempre muito sincero com os meus alunos e digo-lhes que não sei explicar o prazer que é trabalhar nesta área, porque é algo que não se explica mas que se sente. Consigo dizer-lhes que é um campo de trabalho muito entusiasmante, porque cada dia é diferente do anterior, em que conhecemos pessoas fantásticas de várias nacionalidades e culturas e aprendemos todos os dias algo de novo. Para além disto, é uma área muito refrescante que nos permite viajar pelo mundo a tentar saciar o vício turístico que nos é incutido pela atividade. Gosto ainda de dizer a quem está a estudar nesta área que nós estamos no turismo para servir os outros e não para se servirem de nós. E, acreditem, não há nada que nos faça mais feliz do que contribuir para a felicidade dos outros. No fim de contas, o turismo é a “indústria dos sonhos”!

CR – O que mais o encanta em ensinar Turismo?00

NA – Como referi anteriormente, já passei por várias áreas de trabalho dentro do turismo e quando entrei no ensino em 2001 nunca mais saí, porque senti que estava verdadeiramente a fazer a diferença na vida de muita gente. Desde 2001 que me sinto realizado por ter um papel influente no crescimento do turismo em Portugal e, principalmente, por saber que ajudo constantemente dezenas de alunos a encontrarem o seu lugar e o seu espaço na vida. Talvez seja muito old fashion, mas o que realmente me encanta em ensinar turismo é receber mensagens de alunos, antigos e novos, a partilharem comigo o seu sucesso profissional. Isto dá-me realmente uma enorme satisfação de dever cumprido.

CR – Neste momento, quais os maiores desafios da sua profissão enquanto professor universitário de Turismo e como lida com eles?

NA – Os desafios desta profissão são o que mais me encanta. Eu odeio a rotina e a monotonia e, felizmente, esta profissão permite-me criar, recriar, inovar e empreender todos os dias. Em termos objetivos, os grandes desafios de um professor do ensino superior prendem-se com a investigação, a produção científica de qualidade, a formação constante, a construção de aulas criativas e úteis, a conexão com o mercado de trabalho, a orientação de alunos e estimular todos os dias o nosso público-alvo.

CR – Na sua opinião, qual a importância da formação contínua quando nos referimos a profissionais de Turismo?

NA – A formação contínua dos profissionais de turismo, mais do que uma obrigação, é uma necessidade. Ninguém que trabalhe nesta área consegue atingir a excelência sem um follow up formativo constante. A experiência e o conhecimento de mercado que tenho diz-me que tanto ou mais importante que as hard skills (saber fazer) são as soft skills (saber ser e saber estar), sendo que muitas destas qualidades não são inatas e temos de as adquirir para sermos bons profissionais no terreno. Aos professores cabe o enorme desafio de conjugar e ensinar os dois conjuntos de skills. O mercado é hoje cada vez mais concorrencial e para que cada um de nós, profissionais, se diferencie, deve apostar na aquisição de conhecimentos e competências relacionadas com idiomas cada vez mais exóticos (Francês, Russo, Mandarim…), em língua gestual, em primeiros socorros, entre outros que lhes atribua uma polivalência diferenciadora.

CR – Considera que um professor de Turismo será tanto melhor na sua missão de ensinar, quanto mais experiência prática tiver na sua área de atuação ou uma coisa não tem, necessariamente, a ver com a outra?

NA – Tem e não tem! Se estivermos a falar de um ensino universitário, mais teórico e científico, um bom professor completa-se através da sua investigação e da produção científica. Se formos para o ensino politécnico, aí o conhecimento prático de terreno é fundamental para um professor, que deve ainda conjugar com a mesma investigação e produção científica referidas.

O pior que pode acontecer a um professor é ser confrontado com uma situação em aula que desconhece, por estar por ventura afastado do mercado turístico real. Mas esta necessidade de upgrade constante dá muito trabalho e exige muito esforço de nós. Todos os anos eu tenho dezenas de atividades de consultoria, visitas, formações on the job, estágios, eventos, reuniões e outras ações para poder transportar isso para a sala de aula.

CR – Que outros projetos tem para o futuro ao nível profissional?

NA – Neste momento, o que me motiva e concentra muitos dos meus esforços é a produção científica de livros, artigos, projetos, revistas e outras evidências. Estou atualmente a escrever três livros que sairão durante o ano de 2020. Desenvolverei também em breve um projeto muito engraçado de empreendedorismo social turístico, junto de pessoas na condição de sem abrigo, que me permitirá assumir uma nova visão de trabalhar o turismo em prol de um turismo mais comunitário. Continuarei a organizar grandes eventos de natureza turística, cultural e académica e continuarei a desenvolver projetos formativos e a realizar conferências um pouco por todo o mundo. O denominador comum de todas estas ações é o prazer de partilhar. E sempre assim será!

Muito obrigada, Nuno, pela sua colaboração nesta entrevista e pela dedicação diária à sua profissão. É magnífico!

 

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Se é um profissional de Turismo e gostaria de ser entrevistado no âmbito da rubrica “Os Incógnitos do Turismo de Portugal” entre em contacto comigo, vou gostar de o conhecer!

 

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