Como já referi aqui, sou uma aficionada por filmes, especialmente com figuras fortes, determinadas e genuínas. Em boa verdade, todos os personagens são reais, seja pela reprodução de uma história verdadeira, seja através da metáfora da vida real. Mas quero dizer que prefiro as obras biográficas ou baseadas em factos verídicos. Saber que aquelas pessoas existiram mesmo, passaram por tanto e conseguiram aquilo tudo é realmente inspirador! 

A primeira vez que ouvi falar na produção de um filme sobre a vida do António Variações foi há uns meses, na rádio, enquanto ia para o trabalho. Tinha de ir ver!  

Cresci a ouvir as músicas do António e sempre gostei muito delas. Poucas, mas marcantes. Os sons diferentes, a entoação alternativa, mas o que me fazia sempre sorrir, cantar e pensar eram mesmo as letras. Tão reais, tão verdadeiras que quase lhes conseguia tocar. Que genialidade! Fiquei feliz com o boost que os “Humanos” vieram dar à sua obra no início dos anos 2000.

Mas…sobre o cantor sabia pouco, sobre o homem muito menos. Apenas que era um desses desafortunados que tinha morrido cedo, algures pelos anos 80, por causa da SIDA. Sempre equiparei o António de Portugal com o Freddy de Inglaterra, pelos melhores e pelos piores motivos.

Ao ver o filme fui levada numa viagem pelo tempo. Um Portugal abafado, mudo, dormente. Um período de pós-guerra, pós ditadura. Imagens que parecem passar em câmara lenta, numa época em que o stress, a azáfama e a sofreguidão pelo tempo não existem.

Sobre o António fiquei a saber que nasceu em 1944 em Fiscal, no concelho de Amares, no Norte de Portugal. Que era apaixonado por Amália, a fadista, aliás, as suas influências brotam de todo o estilo musical do cantor. Fiquei a saber, ainda, que saiu da sua aldeia, rumo a Lisboa, em busca de um sonho, que esteve na Guerra do Ultramar, que morou na Holanda, tentou cantar por lá, mas sem sucesso. Era muito masculino e cultivava o corpo: exercitava-se, não fumava nem bebia. Bom pagador, nunca devia nada a ninguém. Gostava de se divertir e era homossexual. Sabia defender-se, sabia o que queria e sabia quem era, sem amargura, sem pudor. Assumia-se como barbeiro, mas a música era o que realmente o entusiasmava. Não era músico, não era cantor. As suas músicas eram as suas palavras, ecoavam na sua cabeça, saiam pela boca e depois, só depois, as passava para o papel. Cantava-as nos tempos livres, na casa de banho, na cama, à secretária. Lutou muito para ser reconhecido pela sua obra e foi quando disse “basta” que o conseguiu. Solitário, mas sempre rodeado de gente, teve um grande amor, de nome Fernando Ataíde, com quem privou até à sua morte e a quem não pôde deixar de dar a conhecer a sua amada terra de tradições ancestrais. A primeira aparição pública oficial de Variações deu-se na discoteca “Trumps” com a “Canção do Engate”. Editou dois álbuns: “Anjo da Guarda” e “Dar e Receber” e teve um vislumbre do que era a fama. António foi assolado por tosses intensas muito antes de morrer, mas, apesar das indicações médicas, nunca deixou de cantar, nem mesmo depois de ser internado devido à doença. Resguardava-se na casa de banho do hospital e assim continuava o seu sonho. A broncopneumonia levou a melhor, num corpo desprotegido pela SIDA, no dia de Santo António de 1984.

O filme concentra-se no período de 1977-1984, por isso é impossível saber muito mais e, com certeza, muito mais haveria para descobrir. Aqui são reproduzidos, essencialmente, dois temas: o processo criativo do cantor e a luta pela conceção do seu produto para posterior edição dos seus álbuns. E que bom foi conhecer mais um pouco sobre esta Pessoa!

António Variações era muito à frente para o seu tempo e penso que é por isso que muitos se identificam, hoje, com ele. No contexto da época em que viveu, sair da sua terra natal, ir para a capital, viver no estrangeiro, falar inglês, ser um homem solteiro e independente, irreverente nas palavras e ações, cuidar do corpo, lutar por um sonho, arriscar-se nas artes são feitos grandiosos. Atualmente tudo isto é “o prato do dia”, mas, naquele tempo, não. Hoje compreendemos o seu estilo sem estilo, as suas roupas, a sua irreverência, os seus pensamentos, o seu sentimento de pertencer ao mundo. Naquela época, naquele Portugal e naquele mundo, era difícil ser compreendido. Ficam as suas palavras mágicas, as suas cantigas arrojadas, as suas mensagens sábias, a sua breve história e a sua perpétua lição. Fica, acima de tudo, a obra brilhante de um artista de Portugal, para Portugal. Obrigada António!   

Uma história inspiradora que não acaba por aqui. Quando procuramos saber mais um pouco sobre o filme, percebemos que a equipa que o concebeu passou por muito até conseguir lançar esta magnífica obra. Demoraram mais de dez anos a conseguir o financiamento para o filme, pelo meio lançaram uma peça de teatro – Variações, de António – para angariar verbas e tiveram que lidar com uma série de bloqueios emocionais que todo o processo lhes impôs. Mas não desistiram. Obrigada por isso!

O filme foi realizado e escrito por João Maia e produzido por Fernando Vendrell (David & Golias). Dá vida ao cantor, o ator Sérgio Praia com uma magnífica interpretação, digna de ovação. Por opção do realizador, é Sérgio Praia que canta todas as músicas do filme. Naturalmente, as vozes não se comparam, mas o Sérgio conseguiu criar um personagem tão real, tão fidedigno que nem nos zangamos com isso. Penso, aliás, que o objetivo nunca foi imitar, mas sim criar um “boneco” que melhor representasse o António. E assim foi. Excelente! Muito, muito bom! Não posso deixar de referir, também, a admirável representação de Filipe Duarte, que interpreta Fernando Ataíde. Para mim destacou-se, também, pela sua entrega ao personagem e pela naturalidade da sua performance. De apontar, ainda, o trabalho de guarda-roupa, maquilhagem e caracterização: simplesmente espantoso!  

Espero sinceramente que batam todos os recordes que há para bater e ganhem todos os prémios que há para ganhar. Este filme está mesmo muito bem conseguido e a interpretação é extraordinária. Já tinha dito não é? Acreditem, nunca é demais reforçar: este filme é muito bom! Deixem-se de preconceitos com o cinema português e saiam de casa, vão ver o filme! Levem os amigos, o filho, o marido, a mãe, o cão e o periquito. Vão, sejam muitos. O cinema português merece, a equipa merece, o António merece, você merece!

Vão ver e passem para me contar o que acharam! 

Se já viram partilhem a vossa opinião!

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Os créditos da foto de capa são da Blitz.pt. Fonte: https://bit.ly/2lY04VJ

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