Em Portugal, culturalmente falando, a hora da refeição é mais do que uma oportunidade para nos alimentarmos; usamos este momento para “matar saudades” daquele amigo, para fechar negócios, para iniciar relações, para brainstormings e, até, para meditar. Mais do que suprir uma necessidade fisiológica, a refeição é um momento social que fortalece laços afetivos, promove a troca de ideias e incentiva à criação de vínculos intra e interpessoais.

Mas o que não passa pela cabeça da maioria das pessoas, é que, para que o descrito acima se concretize, é preciso que uma série de condições estejam reunidas, de forma a que se sinta confortável e seguro no ambiente onde se encontra e tudo flua naturalmente.

Para garantir que isso acontece, existem profissionais exímios na atenção ao detalhe e na humanização das experiências, que dão o seu melhor. Hoje dou-vos a conhecer uma dessas pessoas. Ela é a Susana Pinto, Restaurant Manager, natural de Vila Nova de Gaia e apaixonada pela arte de bem receber e tudo o que isso envolve. Vive em Lisboa há quase quatro anos, gosta de ler crónicas do Miguel Esteves Cardoso, ouvir boa música e passar tempo com os seus três gatos.

Fui saber um pouco mais sobre estas funções, esta profissional e o seu percurso:

CR – Como é que surge esta paixão pela restauração na sua vida?

SP – A restauração surge muito cedo na minha vida, dado que por volta dos 14 anos já trabalhava nas férias de verão em esplanadas de praia. Mais tarde, trabalhei nas discotecas do grande Porto, paralelamente aos estudos. Aos 20 anos fui para Stratford – Reino Unido, onde organizei eventos e fiz animação de festas. Quando regressei ao Porto, fui sócia de uma discoteca em Matosinhos que, apesar de não ter tido o sucesso que esperava, foi um momento de grande aprendizagem. Passei por diferentes projetos como empregada de mesa, cozinheira, bartender, chefe de sala, e, aos 25 anos, iniciei o curso de especialização superior em Gestão Hoteleira de Restauração e Bebidas. No final do curso desloquei-me para Lisboa, onde tenho vindo a desempenhar a função de Restaurant Manager e gerente de espaços.

CR – Como caracteriza a área da restauração em Portugal?

SP – Como profissional com mais de 10 anos de experiência em diferentes temáticas e modos de trabalhar, acredito que o domínio das grandes empresas acaba por fazer desaparecer aqueles diamantes brutos, recônditos nas grandes cidades. Foram estes últimos que me fizeram apaixonar por esta arte e que tornam a restauração em Portugal tão única. Temos excelentes locais, com excelentes profissionais, que merecem ser valorizados, mas devemos fazer um esforço para não perder essa magia que deu tanto protagonismo ao nosso país.

CR – O que faz, exatamente, um Restaurant Manager?

SP – Em Portugal somos todas as funções de um restaurante numa só, com o acréscimo da responsabilidade de tudo o que acontece. Cuidamos da imagem nas redes sociais e estamos atentos ao que se fala, lidamos com fornecedores e encomendas, recrutamos e formamos as equipas, cuidamos dos equipamentos e da manutenção do espaço, definimos objetivos financeiros e de marca e isto tudo só de manhã. Verificamos reservas, recebemos clientes e resolvemos as reclamações, substituímos colaboradores em falta e ajudamos no serviço nas horas de aperto. Somos líderes e, acima de tudo, a chave do sucesso. Noutros países, ou em empresas com consciência sobre a função, não desempenhamos a parte operacional e podemos focar-nos nos indicadores de performance e orçamentos do negócio.

CR – De acordo com a sua experiência, há espaço para este tipo de profissionais no mercado português?

SP – Deveria haver mais espaço, mas com foco nas suas reais funções e não tanto como um “faz-tudo”. Um colaborador com tantas funções acaba por desistir ou colapsar. Somos fundamentais na gestão do espaço, devido ao vasto conhecimento e experiência. Isto é basilar quer para lidar com os clientes, quer para lidar com as equipas. Acredito que nos pequenos negócios não faça sentido esta posição, devido ao seu custo, mas deviam recorrer a consultores para aprender, pelo menos, sobre a “gestão inteligente” dos seus recursos.

CR – Quais os maiores desafios da sua função atual e como se ultrapassam?

SP – Acho que o principal desafio, não só na minha função, mas na restauração em geral, é a carga horária. Nesta área trabalhar 10-12h por dia é normal, ter apenas uma folga por semana é normal e isso tem que mudar se queremos manter os nossos melhores profissionais. Outro grande desafio é aprender a gerir as nossas emoções, pois trabalhamos com e para pessoas que na maioria das vezes são imprevisíveis e só com a experiência é que vamos aprendendo a não explodir ou quebrar. Ainda existem também os míticos preconceitos relativos à restauração e isso demora a mudar.

CR – A restauração é uma área muito dura de se trabalhar, mas viciante. Qual a sua perspetiva acerca desta dualidade e como faz para encontrar um equilíbrio?

SP – Com o passar da idade vamos encontrando o nosso equilíbrio. Para quem vê esta área como carreira e paixão, a adrenalina de ver um restaurante cheio ou servir uma centena de pessoas numa sexta-feira à noite é o elixir da alma. Chegamos exaustos a casa, mas com vontade de mais. Já tive colegas que iam ao ginásio entre os turnos, outros que preferiam uma esplanada ou um jogo de snooker. A gestão do tempo é a nossa maior necessidade, pois só assim conseguimos aguentar a dureza da nossa vida profissional. Eu uso videojogos e os momentos com amigos e família para encontrar esse equilíbrio, mas nunca desligo totalmente, pois há sempre uma história para contar.

CR – Qual a importância da restauração num país tão turístico como Portugal? É possível encantar um cliente “pela boca”?

SP – Como referi acima, é fundamental não deixar que se percam os nossos “tascos” e pequenos restaurantes nas grandes cidades. É preciso não perder a essência portuguesa. Há espaço para ter restaurantes para todos os gostos, temáticas e carteiras. A nossa restauração é uma das bandeiras do turismo nacional e, para além de conseguirmos encantar os clientes “pela boca”, somos peritos na arte de bem receber, o que os cativa ainda mais.

CR – Quais as características que considera ser mais importantes para se trabalhar em restauração e, mais especificamente, a liderar estas equipas e porquê? 

SP – A característica fundamental é o amor pelo que se faz, tudo o resto pode ser absorvido ao longo da vida, através da experiência. Temos, no entanto, que ter noção de tudo o que iremos abdicar ao nível social e familiar. Já a liderança, consegue ser muito ambígua, pois a empatia não se pode transformar em amizade ou facilitismo. Tem que haver exigência, sem nunca esquecer que trabalhamos com pessoas em constante pressão. Aprender a ser líder foi, sem dúvida, o meu maior desafio e com cada equipa de trabalho aprendo tanto como se começasse tudo de novo.

CR – Que outros projetos tem para o futuro ao nível profissional?

SP – Ainda como operacional gostava de ter o privilégio de integrar uma equipa de sala num evento do Chef Rui Paula, por quem tenho grande admiração. Para o futuro, a formação e a consultoria são os meus objetivos, apesar de ter consciência que a consultoria em Portugal, no formato freelancer, ainda é receada pelos pequenos empreendedores e, nas grandes empresas, é assegurado por pessoas das mesmas.

CR – Conte-nos uma história caricata que tenha acontecido no âmbito do seu trabalho e que queira partilhar connosco.

SP – É difícil escolher apenas uma, mas posso partilhar que aqui em Lisboa é comum notarem o meu sotaque e isso acabar por ser tema de conversa.  Por vezes chegam a pedir o meu contacto, pois querem dicas sobre os melhores lugares a conhecer na próxima visita ao Porto; outras vezes pedem que fale com o sotaque mais cerrado que conseguir e que diga alguns palavrões!

 

Muito obrigada, Susana, pela sua colaboração nesta entrevista e pela dedicação diária à sua profissão. É estupenda!

 

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Se é um profissional de Turismo e gostaria de ser entrevistado no âmbito da rubrica “Os Incógnitos do Turismo de Portugal” entre em contacto comigo, vou gostar de o conhecer!

 

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